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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Poe, Poesia e Origami (O Corvo - The raven)




"Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera.
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: 'Nunca mais'."

(O Corvo, Edgar Allan Poe, tradução de Machado de Assis)


Eis um corvo estilizado e simples, em origami, dobrado pensando na leitura de Edgar Allan Poe. A ideia foi lançada pelo Gregorio nos comentários do post sobre os 200 anos de nascimento do escritor e, como gostei bastante da sugestão, saí em busca de um diagrama ou instrução para dobrar a misteriosa ave negra. Escolhi O Corvo para dobrar, porque percebi que, no post anterior, havia comentado apenas os contos de Poe e nada havia falado sobre a poesia.

Para dobrar, usei as instruções que constam em vídeo no site Metacafe, e fiz uma alteração na dobra da cabeça, invertendo o sentido, para criar a sensação de que o corvo está virando o pescoço.

Sobre o famoso poema O Corvo (The Raven), há várias traduções para o português e é muito interessante compará-las para perceber as soluções que cada tradutor encontrou, ora para manter as rimas, ora para manter o suspense do texto. Temos, por exemplo, disponíveis na rede, as traduções de:
- Machado de Assis;
- Fernando Pessoa; e
- Milton Amado.

Outra forma de entrar em contato com o poema é através das várias declamações do texto em inglês. Vale ouvir:
- a memorável interpretação na voz de Vicent Price;
- e também na de Christopher Walken. Em vídeo postado no Youtube, que pode ser visto abaixo, ouve-se Walken e veem-se ilustrações de Gustave Doré.





Aliás, não se pode deixar de conferir a arte de Gustave Doré para The raven que está disponível na rede, no site do Projeto Gutenberg.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Das preciosidades da grande rede (1) - Palavras


Taí... resolvi criar uma série com o título acima para compartilhar algumas descobertas na grande rede que, vira e mexe, me surpreendem muito. Como não ficar contente ao encontrar, com a simplicidade de uma busca, de um clique, imagens e palavras tão bonitas quanto as que aparecem nesse vídeo?



É Paulo José declamando o poema José de Carlos Drummond de Andrade no programa Palavras que estreou no Canal Futura no último dia 22 de janeiro.

O programa compõe-se de 8 episódios e todos estão disponíveis na rede (no link do programa) para ouvidos, olhos e sensibilidades atentas - é só se deixar levar...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

La Divina Increnca - Juó Bananére



Publicada originalmente em 1915, La Divina Increnca é uma coleção de poemas satíricos compostos em uma linguagem bastante peculiar e divertida – uma mistura do italiano, do português e do caipira falado nas ruas de São Paulo naquela época. Trata-se de um linguajar bastante peculiar e facilmente reconhecível, principalmente para quem tem contato com italianos ou descendentes diretos deles.

Contudo, apesar das influências que o italiano certamente deixou no nosso sotaque paulista, essas influências já não se mostram hoje tão evidentes quanto na época de Bananére, quando os imigrantes italianos chegavam em massa para trabalhar nas fazendas ou nas indústrias do estado.

Juó Bananére - pseudônimo adotado pelo autor Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, nascido em Pindamonhangaba em 1892.

Ri muito com os divertidos poemas desse candidato a “Gademia Baolista di Lettera”, especialmente ao reconhecer as referências a poemas consagrados do mundo literário. A esculhambação que o Bananére faz é ótima. Ninguém escapa: Bilac, Gonçalves Dias, Edgar Allan Poe, La Fontaine e até Camões são referenciados, parodiados.

Abaixo um exemplo comparativo - um trecho de "Meus oito anos" do Casimiro de Abreu, no qual a infância é idealizada, um poema tipicamente romântico e, em seguida, um trecho do poema "Os meus otto ano" de Bananére, em que a infância é retratada de modo bem diferente!

"Meus oito anos
Casimiro de Abreu

[...]

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é - um lago sereno,
O céu - um manto azulado, [...]"

"Os meus otto anno
Juó Bananére

O chi sodades che io tegno
D'aquillo gustoso tempigno,
Ch'io stava o tempo intirigno
Bringando c'oas mulecada.
Che brutta insgugliambaçó,
Che troça, che bringadêra,
Imbaxo das bananera,
Na sombra dos bambuzá.

Che sbornia, che pagodêra,
Che pandiga, che arrelia,
A genti sempre afazia
Nu largo d'Abaxo o Piques,
Passava os dia e as notte
Brincando di scondi-scondi,
I atrepáno nus bondi,
Bulino cos conduttore. [...]"
O gostoso também é ler os poemas em voz alta tentando imitar o sotaque italiano. No Ver São Paulo n.1, é possível conhecer um pouco mais sobre esse autor, também cronista e jornalista, e ouvir alguns poemas dele declamados. Muito interessante ouvir a voz do próprio Bananére em Sóle Mio.

É possível também ler os poemas de La Divina Increnca, em sua versão on-line. Nesta versão, há links para um glossário que remete às figuras da época e que o autor satirizava.

A edição da Editora 34 que lemos apresenta o texto como foi publicado originalmente e conta ainda com textos de Otto Maria Carpeaux e Antônio de Alcântara Machado.

A capa e as ilustrações são de Voltolino (1884-1926). É possível conhecer alguns de seus trabalhos, incluindo algumas ilustrações para o Sítio do Picapau Amarelo de Monteiro Lobato, clicando aqui.



Outros dados da obra:
Autor: Juó Bananére (Alexandre Ribeiro Marcondes Machado - 1892-1933)
Título: La divina increnca
Ilustrador: Voltolino
São Paulo, Editora 34, 2001, 72 p.

A edição da Editora 34 é a reprodução integral da primeira edição de 1915. Houve outras edições posteriores a 1915 que foram alteradas pelo autor. Até a 9a. edição, em 1925, Bananére acrescentou mais poemas, uma peça e outras histórias à obra.

domingo, 5 de outubro de 2008

Entardeceres




Cancão do dia que se vai
Federico García Lorca



Que trabalho me dá
deixar-te ir, ó dia!
Vais cheio de mim,
voltas sem me conhecer.
Que trabalho me dá
deixar sobre teu peito
possíveis realidades
de impossíveis minutos!

Na tarde, um Perseu
te lima as correntes,
e foges sobre os montes
ferindo-te os pés.
Não podem seduzir-te
minha carne nem meu pranto,
nem os rios nos quais
dormes tua sesta de ouro.

Do Oriente ao Ocidente
levo tua luz redonda.
Tua grande luz que sustém
minha alma, em tensão aguda.
Do Oriente ao Ocidente,
que trabalho me dá
levar-te com teus pássaros
e teus braços de vento!



In: LORCA, Federico García. Obra Poética Completa, p. 347-348
Tradução de Willian Agel de Melo. Brasília: Editora da Unb/São Paulo: IMESP, 2004.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Gatos (Cats - Origami)




Este gato foi criado pelo origamista Román Díaz e o diagrama pode ser encontrado no site Origami Chile, clicando aqui.

Um diagrama versátil que permite variações interessantes no modelo final. Se for utilizada uma tira de papel bem comprida, por exemplo, é possível criar efeitos diferentes para o rabo dos gatos: enrolados ao redor do corpo, ondulantes, espetados. Também permite algumas mudanças na cabeça e nos olhos. Gostei tanto deste modelo que fiz vários bichanos - uma família colorida.



Enquanto dobrava, brincando com o papel, imaginava a flexibilidade dos felinos, seu ar distante, e foi inevitável a lembrança deste poema do Jorge Luís Borges:


A um gato


Não são mais silenciosos os espelhos
Nem mais furtiva a aurora aventureira;
Tu és, sob a lua, essa pantera,
Que divisam ao longe nossos olhos.
Por obra indecifrável de um decreto
Divino, buscamos-te inutilmente;
Mais remoto que o Ganges e o poente,
Tua é a solidão, teu o segredo.
Teu dorso condescende à morosa
Carícia de minha mão. Sem um ruído,
Da eternidade que ora é olvido,
Aceitaste o amor dessa mão receosa.
Em outro tempo estás. Tu és o dono
De um espaço cerrado como um sonho.


In: BORGES, J.L. O Ouro dos Tigres. Obras Completas, v. II, p. 551, Ed. Globo




quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Ventos e rios



Vento
Pastor de Nuvens

(Mário Quintana)*


Bilhete a Heráclito
Tudo deu certo, meu velho Heráclito,
porque eu sempre consigo
atravessar esse teu outro rio
com o meu eu eternamente outro...

(Mário Quintana)**


Poesias publicadas em:
(*) Da preguiça como método de trabalho
(**) A vaca e o hipogrifo
In: Mário Quintana: Poesia Completa
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Lirismos

Nanquim e bico de pena


"[...]
Já posso amar as moscas como a mim mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se atraca
em meu olho
Mas eu tenho predomínio dos lírios.
Plantas desejam a minha boca para crescer
por de cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
[...]
Já enxergo o cheiro do sol. "

Manoel de Barros
In: Retrato do artista quando coisa
Ed. Record, p. 11

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Poesias


Porque às vezes passamos pelos mesmos lugares
E eles são diferentes...
.
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"XXXIII
Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares.
Parecem ter medo da polícia...
Mas tão boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas falavam..."

(O Guardador de Rebanhos – Alberto Caeiro)
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