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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O BGA - Roald Dahl




Quando Sofia ficou acordada de noite, em um horário meio perigoso para se estar acordado, bem de madrugada, na chamada hora das bruxas, acabou se deparando com algo que nem ela, nem nós, imaginávamos: o BGA, uma sombra estranha, gigante, que espiava pela janela das casas.

O que era o BGA, ela fica sabendo logo depois - o Bom Gigante Amigo, que tem uma maneira muito peculiar e divertida de falar, mas mora num lugar perigosíssimo cheio de outros gigantes comedores de "serumanos". Além disso, o BGA tem umas ideias que mexem com a cabeça da Sofia:
"(...) Gigante não dorme muito, só assim de quando em vez. Não é feito os serumanos, que adora tanto dormir. Você já prestou atenção que um serumano de cinquenta anos passou menos ou mais vinte anos dormindo pesado?
- Confesso que nunca tinha pensado nisso - disse Sofia.
- Não precisa confessar, só pense, por favor - disse o BGA. - Pense assim. Esse serumano de cinquenta anos que nós tá falando dele, de verdade ele passou vinte anos dormindo sem nem saber aonde! Sem fazer nada! Sem nem pensar em nada!
- É uma ideia engraçada." (O BGA, 2009, p. 117)
Outra característica muito bacana do BGA é que ele sabe como encontrar os sonhos e capturá-los, para depois soprar nas janelas das crianças, para que tenham sonhos bem legais.

A grande aventura do livro começa quando Sofia e o BGA resolvem fazer alguma coisa para se livrar dos outros gigantes que comem gente. E até a rainha da Inglaterra vai entrar na história!

É um livro divertidíssimo e gostoso de ler, escrito por um autor muito especial, o Roald Dahl, que é também autor de Matilda e James e o Pêssego Gigante, que acabaram virando filmes.

Um destaque para a tradução da Angela Mariani que conseguiu manter a graça do original, criando palavras que ficaram muito interessantes e engraçadas em português. Outro detalhe desta edição: as ilustrações do Quentin Blake - que podem ser vistas no site do autor:  http://www.quentinblake.com/gallery/illustrations

Ou seja, se você ainda não leu nada do Roald Dahl (como eu ainda não tinha lido), experimente. É daqueles autores que a gente acaba um livro e já sai correndo atrás de outros títulos. Já estou de olho em um que está nas livrarias e se chama: As bruxas. Bom... tem também A fantástica fábrica de chocolate e Matilda que só conheço dos filmes. Como é bom quando a gente encontra um autor que dá vontade de ler a obra inteira!

Mais alguns dados da obra:

Título original: The BFG
Autor: Roald Dahl (1916-1990)
Tradução: Angela Mariani
Ilustrador: Quentin Blake
São Paulo, Editora 34, 2009, 2a. ed., 288p.

Atualizando (03/01/2014):
Existe também uma animação, de 1989: The BFG (em inglês) - trailer no youtube:




quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O Rei de Quase-Tudo - Eliardo França




O Rei de Quase-Tudo sempre queria mais. Não se contentava com nada do que tinha - queria acumular, aprisionar, guardar... Mas, até onde se pode realmente "ter" tudo? Precisamos "ter" tanto?

Estas questões, com sua profundidade própria, são tratadas de forma primorosa pelo autor, Eliardo França. Seu texto e suas belas ilustrações podem parecer simples à primeira vista - contudo, é justamente nessa simplicidade e leveza que moram a sua força e capacidade instigadora.
A arte das imagens, suas cores, trabalham em conjunto com o texto para dar o clima da narrativa (dá para ver um exemplo de ilustração no site do autor, clicando aqui). Gosto em especial da imagem de página inteira que mostra o Rei de Quase-Tudo triste, quando ele começa a perceber que, tendo aprisionado tudo, não tinha realmente nada.

Este livro foi lançado em uma época conturbada da nossa história, em 1974, época do governo militar. E tratar dessa relação de posse e poder ditatorial, trazendo a temática para o público infantil, foi extremamente importante - o foi na época e continua sendo até hoje, pois vai além e nos permite pensar na posse, no "ter" em vários outros sentidos também. É como um farol aceso que aponta o que pode limitar nossa capacidade de usufruir a vida e de sermos livres.

Muito premiada (recebeu menção honrosa na Bienal de Ilustrações de Bratislava, em 1975; o primeiro lugar como "Livro para um Mundo Melhor" da Unesco, em 1979; entre outros), esta obra, sem dúvida, merece todas as honrarias que recebeu.

Demorei para conhecê-la - só agora tive a oportunidade de lê-la - e posso garantir: continua tão viva hoje quanto na época em que foi lançada. É daqueles livros aos quais gostamos de voltar sempre, por isso, como sempre gosto de reforçar aqui: é uma obra muito recomendável não só para o público infantojuvenil, pois sua arte e texto são muito acessíveis aos pequenos, mas também é excelente para o público adulto!

Mais alguns dados da obra:

Primeira publicação: 1974
Autor: Eliardo França (MG, 1941 - )
Ilustrações do próprio autor
Editora: Global
São Paulo, 15a. edição, 2011
Trechinho de entrevista com o autor pelo Museu da Pessoa no youtube.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Píppi Meialonga - Astrid Lindgren




Píppi Meialonga é uma menina diferente e, principalmente, independente, cheia de atitudes e ideias que costumam chacoalhar alguns pensamentos não muito acostumados a sair do lugar.

Para alguns, ela pode até assustar à primeira vista - mas quem não fica um pouco intrigado com o que vê pela primeira vez? Afinal, Píppi é uma criança, mas veio morar sozinha na Vila Vilekula, tem um macaco como companheiro permanente, o Sr. Nilson, e um cavalo que mora na sua varanda, além de ser uma garota muito, mas muito forte mesmo.

Essa famosa personagem da literatura infantil mundial, criada pela Astrid Lindgren lá nos idos de 1945, continua (e como continua) extremamente atual e instigante. Por quê? Principalmente pelo inusitado, pelo bom humor e por questionar lugares comuns meio bolorentos. É o que acontece, por exemplo, quando os policiais são chamados para tentar levar a garota para um lar de crianças:
"[...] Depois acrescentaram que algumas pessoas bondosas da cidade estavam tomando providências para conseguir uma vaga para ela num lar de crianças.
- Já tenho minha vaga num lar de crianças - disse Píppi.
- Como assim? A questão já foi resolvida? - perguntou um dos policiais. - Onde fica esse lar de crianças?
- Bem aqui! - disse Píppi, orgulhosa. - Eu sou uma criança, e este é meu lar, portanto este é um lar de criança. E aqui tem vaga de sobra pra mim. [...]
- É, mas você não entende que tem de ir à escola? - insistiu o policial.
- E por que tenho de ir à escola?
- Para aprender as coisas, óbvio!
- Que tipo de coisas?
- Todos os tipos de coisas - disse o policial -, um montão de coisas úteis. A tabuada, por exemplo.
- Faz nove anos que vivo muito bem sem tamburada - disse Píppi - E não vejo nenhuma razão para não continuar assim. [...]" (p.38-39)
E mais adiante, quando o policial pergunta se ela não vai ficar com vergonha se alguém lhe perguntar qual é a capital de Portugal e ela não souber responder:
" - É, mas você não acha que ia ficar chateada por não saber?
- Pode até ser - disse Píppi - Com certeza eu ia ficar noites e noites acordada pensando: 'Como é mesmo que se chama a capital de Portugal?'. Mas a pessoa não pode passar o tempo todo se divertindo - disse, e para variar um pouco trocou de posição e começou a se equilibrar nas mãos em vez de ficar em pé. - Aliás, já estive em Lisboa com meu pai - continuou, ainda de cabeça para baixo, pois também conseguia falar nessa posição." (p. 39)
Conheci os livros da Píppi faz pouco tempo e um dos aspectos que me agradou foi que, na maior parte do tempo, as perguntas por quê? como? isso poderia ser diferente? foram encaminhando o pensamento durante a leitura.

Em sua narrativa fluente, cheia de encanto e alegria, Astrid nos faz acompanhar as várias aventuras de Píppi,  e seus amigos Tom e Aninha que acabam aprendendo com ela a brincar de verdade. A personagem acaba mostrando a outras crianças um forte senso de justiça e, aos adultos, que não são sempre eles que sabem tudo - todos precisam suspeitar de suas certezas. Além disso, Píppi é uma figurinha muito simpática e bastante aberta a questionar a si mesma:
" - De onde você tirou que eu nunca estive no Egito? Pois estive! Fique sabendo que eu já estive em todos os lugares do mundo e já vi muitas coisas bem mais estranhas do que pessoas andando de costas [...]
- É tudo mentira sua - disse Tom.
Píppi pensou um pouco.
- É você tem razão. É mentira - disse ela, chateada.
- É feio mentir - disse Aninha, que finalmente tinha criado coragem de abrir a boca.
- É mesmo, é muito feito mentir - disse Píppi, ainda mais triste. - Mas de vez em quando eu esqueço, entende? E você acha mesmo que uma menina que tem uma mãe que é um anjo e um pai que é rei dos canibais, uma menina que passou a vida inteira navegando mar afora, tem de ficar o tempo todo dizendo a verdade? E aliás... - [...]" (p.15-16)
Um destaque da edição da Companhia das Letrinhas são as ilustrações do Michael Chesworth, ilustrador americano também responsável pelas imagens de Píppi nos Mares do Sul e Píppi a Bordo. As imagens são tão divertidas e instigantes quanto o texto.

Mas o principal - este livro nos proporciona um grande prazer - é muito divertido viajar pelo mundo da Píppi Meialonga!


Mais alguns dados da obra:

Autora: Astrid Lindgren (1907-2002)
Título original: Pippi Långstrump (1945)
Tradução do sueco por: Maria de Macedo
Ilustrações: Michael Chesworth (site - http://www.crashbangboom.com/)
Edição: Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2001, 156 p.

E mais algumas informações sobre a Píppi e sua criadora:

- Uma entrevista com a Astrid Lindgren (em inglês) está disponível no site Astrid Lindgren´s World;
- As peripécias da menina de tranças esticadas ganharam uma série para a TV em 1969 e adaptações para o teatro;
- A autora tem por volta de 80 livros publicados traduzidos para diversas línguas;
- No Brasil, além de Píppi Meialonga, foram traduzidos: Píppi a Bordo e Píppi nos Mares do Sul.
- Aqui no blog já comentamos também sobre Os irmãos coração de leão.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A Vaca Voadora - Edy Lima





Às vezes me pergunto como um livro se torna um clássico entre os leitores... um dos motivos é, certamente, sua atemporalidade. Um livro que pode ter sido lido há 30, 25, 15, 5 anos ou há alguns minutos e que continua tão prazeroso e encantador como sempre.

Minha primeira leitura de A Vaca Voadora aconteceu no final da década de 70, em uma edição do antigo Círculo do Livro, que li emprestada. Em uma época em que passávamos por dificuldades financeiras no país, não era tão fácil comprar os livros, ainda mais em uma família com muitas pessoas.

Na época, em minha leitura de criança, li de uma vez só, não só porque o livro não podia sair da casa dos primos, mas porque eu não podia ir embora sem saber como acabariam as aventuras de Lalau, Gumercindo, tia Quiquinha, tia Maricotinha e da encantadora Vaca que voava graças ao Elixir de Levitar! O texto envolvia pelas aventuras, pelo humor, pelo non-sense (palavra que só aprendi muito depois, é claro! rs), pelas ilustrações do Jayme Cortez. E pensando hoje lá na infância, também pelo despertar das indignações contra as injustiças.

Mas a edição do Círculo do Livro era ainda mais instigante, porque, se virássemos o livro ao contrário, tínhamos de brinde também A Vaca na Selva, continuação das aventuras daqueles personagens que já se faziam queridos. Para quem gosta de ler, a edição era uma preciosidade. Naquela época, dois livros em um? Esse foi um dos objetos que mais cobicei na infância/adolescência! Agora, muito tempo depois, comprei essa relíquia no sebo para matar as saudades (mais um viva para a excelente Estante Virtual!).


A Vaca Voadora / A Vaca na Selva, Edy Lima, Edição do Círculo do Livro

Antes de encontrar a edição no sebo, já havia relido o texto outras vezes na também competente edição da Global, com as divertidas ilustrações do Michele Iacocca. Nessa publicação de 2007, o livro já estava em sua merecida 32a. edição.

A Vaca Voadora, Edy Lima, Edição da Global Editora

Relendo agora, além do que encantava no passado, o prazer está em perceber como todos os personagens têm o seu valor, superando quaisquer preconceitos: as mulheres, as crianças, os homens, os animais (e até os seres mágicos) todos têm o seu papel relevante e são respeitados, tudo apresentado com bastante sensibilidade e humor. Um exemplo? Logo no comecinho do livro, como o pessoal poderia ir comer a omelete de ovos de ouro e deixar a vaca do lado de fora, só porque ela não passava na porta?
"Tia Maricotinha foi entrando em casa, seguida por Gumercindo. A vaca quis acompanhá-los, mas não conseguiu passar na porta, que era um tanto estreita para seu corpanzil. Eu e tia Quiquinha, um pouco constrangidos em deixar a vaca sozinha no lado de fora, ficamos em frente à porta da cozinha, fazendo-lhe companhia. Lá dentro, tia Maricotinha tentava partir os ovos para fazer a omelete, e reclamava:
- Repare só, Gumercindo, que absurdo, só encontro ovos de ouro. Quiquinha com essa mania de transformar tudo em ouro, não deixou um só ovo de verdade." (A Vaca Voadora, Edy Lima, Global Editora, p. 11-12)
A história dos ovos de ouro para a omelete rende uma discussãozinha entre a Tia Quiquinha, alquimista, e a Tia Maricotinha, excelente cozinheira. Mas as desavenças são curtas, tudo pode se resolver. Trecho gostoso de ler na escrita divertida e fluente da Edy Lima:
"Tia Maricotinha embora também de muito bom caráter, resolveu reclamar. Não contra a vaca, mas contra tia Quiquinha:
- Não fosse sua mania de virar tudo em ouro, isso não teria acontecido.
- Calma, Maricotinha, nada é tão grave quanto a gente supõe, nem tão suposto quanto a gente agrava.
- Mas já decidi fazer omelete e quero fazer uma.
- Deixe que eu transformo alguns ovos de ouro em ovos comuns.
- Duvido que você possa fazer isso.
- Não é mais difícil transformar um ovo de ouro em ovo comum, do que um ovo comum em ovo de ouro.
- Não sei, não. Eu posso transformar ovos em omelete, mas não posso transformar omeletes em ovos. [...]" (A Vaca Voadora, Edy Lima, Global Editora, p. 14-15)
E mais um trechinho de que gosto, quando o atirador de facas não consegue competir com Poiranga, o índio convidado para a festa de Gumercindo:

"O atirador de facas protestou:
- A velha é gorda e o alvo se torna mais amplo.
- Não sou tão gorda assim - respondeu tia Maricotinha - e se sou velha não é da sua conta. Pois é coisa muito mais difícil do que ser moço. Afinal, 20 anos é coisa que qualquer um pode ter. Mas nem toda a gente chega até os 60, forte como eu. Caía fora. E para você não ofereço lanche nenhum para o caminho.
O homem saiu meio sem jeito, seguido pela moça equilibrista." (A Vaca Voadora, Edy Lima, Global Editora, p. 98)

Boa resposta, tia Maricotinha!

Mais um outro motivo para este ser um clássico da literatura brasileira: o prazer do texto!

Para tempos de internet, este post ficou um tanto comprido... se você chegou até aqui, minha intenção era passar um pouco do entusiasmo que tenho por essa leitura. Não conhece A Vaca Voadora ainda? Corre conhecer!


Dados das edições citadas:

Autora: Edy Lima (RS - 1924)
Primeira edição de A Vaca Voadora: 1970
Um pouco mais sobre a Edy no Memórias da Literatura Infantil e Juvenil, clicando aqui.
Entrevista da Edy Lima no blog Terravist@ - http://terra-vista.blogspot.com/2009/03/edy-lima.html

Edição do Círculo do Livro:
Capa: Agustin Jordá Villacampa
Ilustrações: Jayme Cortez
São Paulo, 1976, 139p. (mais 178 p. de A Vaca na Selva)

Edição da Global Editora
Ilustrações: Michele Iacocca
Mais informações sobre o ilustrador, aqui.
São Paulo, 2007, 32a. edição, 111 p.


sexta-feira, 8 de julho de 2011

O Fantasma de Canterville - Oscar Wilde


"Uma crônica divertida das atribulações do Fantasma de Canterville quando seus salões ancestrais se tornaram o lar do embaixador americano junto à Corte de Saint James." (O.Wilde)


A estória começa com uma família tipicamente americana (os Otis) que, na Inglaterra, resolvem adquirir a propriedade onde habita um célebre e terrível fantasma, a despeito dos avisos de seu proprietário, Lorde Canterville, e do medo expressado pelos criados da casa.

Com um ceticismo característico, a nova família questiona a presença do fantasma. Contudo, em determinado momento, a existência da entidade não pode mais ser negada, o que, entretanto, não intimida os novos moradores - os filhos gêmeos, por exemplo, não hesitam em pregar várias peças no espírito, e o mais velho, Washington, recorre a vários recursos para tentar desbaratar as ações sobrenaturais.

É bastante interessante como o escritor vai apontando os sentimentos do fantasma ao se ver tão desprezado, ao mesmo tempo em que vai se lembrando como sempre fora tão temido. O que estaria mudando? Nesse ponto, a narrativa que vinha sendo feita em terceira pessoa, dá voz ao fantasma, passando à primeira pessoa.

O único membro da família que parece se sensibilizar com a, agora, triste figura é a delicada Virgínia, que terá papel importante na redenção do fantasma, mas isto só poderá ocorrer se uma velha profecia se concretizar... afinal ele havia cometido um crime horrível.

Mais do que uma simples estória de fantasmas, nessa narrativa, Wilde brinca com contrastes existentes entre as culturas inglesa e americana. Ironiza em vários momentos o tradicionalismo inglês e as "modernidades" e o racionalismo americanos, como quando os novos habitantes recebem da governanta da casa explicações sobre uma mancha de sangue no assoalho que teria origem sobrenatural:

"A velha mulher sorriu e respondeu com a mesma voz baixa, misteriosa: 'É o sangue de Lady Eleanore de Canterville, que foi assassinada exatamente naquele lugar pelo marido, Sir Simon de Canterville, em 1575. Sir Simon sobreviveu a ela nove anos e desapareceu de repente, em circunstâncias muito misteriosas. Seu corpo nunca foi encontrado, mas seu espírito culpado ainda assombra a Quinta. A mancha de sangue foi muito admirada por turistas e visitantes e não pode ser removida'.

'Isso tudo é um disparate', exclamou Washington Otis. 'O Campeão dos Tira-Manchas Pinkerton e o detergente Paragon vão removê-la num instante.' E, antes que a apavorada governanta pudesse interferir, ele se ajoelhou e esfregou o chão rapidamente [...]" (p.14-15)

Bastante irônico e até cômico ao início (não há como conter o riso em algumas passagens), aos poucos o livro vai ganhando um toque mais sensível e culmina com uma mensagem bem mais profunda, ao final, sobre o tema vida e morte ... Diz Virgínia:

"Não me peça tal coisa, Cecil, não posso dizer-lhe nada. Pobre Sir Simon! Devo muito a ele. É isso mesmo, não ria, Cecil. Mostrou-me o que é a Vida, o que significa a Morte e por que razão o Amor é mais forte do que a Vida e a Morte." (p.60)


Ilustração de Lisbeth Zwerger (p. 35)

Este foi mais um clássico que valeu a pena conhecer e cuja leitura se tornou ainda mais agradável na indispensável edição da Berlendis & Vertecchia, pelas delicadas ilustrações da premiada artista Lisbeth Zwerger. As imagens completam o texto com um toque bastante especial. Outras aquarelas da artista podem ser vistas no blog Entre lápis e pincéis.

Mais alguns dados da obra:

Texto integral
Autor: Oscar Wilde (1854-1900 - Irlanda)
Título Original: The Canterville Ghost
Tradução e Notas de: Renata Lucia Bottini
Ilustradora: Lisbeth Zwerger (1954 - Áustria)
Editora Berlendis & Vertecchia, São Paulo, 2009, Coleção Os meus clássicos, 63 p.


sábado, 4 de junho de 2011

A árvore vermelha - Shaun Tan



Lindo.
Poesia de ver.
É livro de todas as idades.

Se, a partir de agora, por um momento,
eu me sentir triste,
certamente me lembrarei de um alento,
de que, a cada passo, uma folhinha da árvore vermelha
estará ali, esperando...
esperando pronta para brotar.

Esta obra é livro de deixar-se levar,
de parar para admirar as maravilhosas ilustrações de Shaun Tan...
Por isso, uma importante dica de leitura:
nele imagens e textos se mesclam,
se misturam
se completam, então:
pegue o livro nas mãos,
respire fundo, bem fundo, relaxe
e demore bastante em cada página... observando cada detalhe.



"Quem já não acordou algum dia
com a certeza de que tudo vai mal
e não há nada a fazer?
Quem já não se sentiu
como um peixe fora d'água
em um mundo pra lá de estranho?"
(texto da contracapa do livro A árvore vermelha de Shaun Tan, acima)

Shaun Tan é um artista australiano merecidamente premiado por suas belas criações, com toques surreais. Para saber um pouco mais sobre ele, visite o site (em inglês): http://www.shauntan.net/news1.html

Mais alguns dados da obra:

Autor / ilustrador: Shaun Tan
Título Original: The red tree
Traduzido por: Isa Mesquita
Publicado originalmente pela Lothian Books (Hachette Libre Australia)
São Paulo: Edições SM, 2009, 32 p.


sexta-feira, 13 de maio de 2011

Os contos de Beedle, o Bardo - J. K. Rowling




Quem é fã da série Harry Potter da escritora britânica J. K. Rowling já conhecia Os Contos de Beedle, o Bardo, como um livro infantil existente no mundo dos bruxos.

Mas, mais do que isso, em As Relíquias da Morte, um exemplar desse pequeno livro foi deixado como uma herança especial do Prof. Dumbledore para a Hermione, e teve papel crucial nos eventos sombrios que se sucederam na batalha contra o famigerado Você-Sabe-Quem.

A curiosidade sobre esse livro infantil não deixou de ficar latente por aqui (no mundo dos não-bruxos) e, em 2008, veio à luz em uma nova edição que, conforme a autora, foi traduzida diretamente das runas originais pela própria Hermione, com uma compilação de comentários que Dumbledore havia feito, no passado, sobre os contos. Assim, Rowling, incluindo suas próprias ilustrações, permitiu que também nós conhecêssemos mais esse detalhe que envolvia as crianças de Hogwarts.

O livro contém cinco contos interessantes de tempos remotos, transmitidos através das gerações pelos adultos bruxos a seus filhos e alunos. Nessa simpática edição constam: O bruxo e o caldeirão saltitante; A fonte da sorte; O coração peludo do mago; Babbity, a coelha, e seu toco gargalhante; e O conto dos três irmãos (que ganhou uma belíssima animação no filme As relíquias da morte, parte 1 - é possível vê-la, por enquanto, clicando aqui).

Gostei bastante dos dois primeiros, em especial de A fonte da sorte, que trata de superações e companheirismo. Os comentários de Dumbledore são também muito interessantes, contudo talvez interessem mais a adolescentes e adultos e não tanto às crianças. Minha sobrinha de 10 anos devorou os contos, mas deixou os comentários para ler depois. Esse tipo de obra me fez lembrar a estrutura de as Histórias da Tia Nastácia (Monteiro Lobato), guardadas as evidentes diferenças, claro. No clássico nacional, também Emília, Pedrinho, Narizinho e D. Benta comentavam e criticavam as fábulas e as estórias de fadas contadas pela nossa bondosa tia quituteira.

Rowling foi bastante perspicaz ao incluir esses comentários que, em alguns momentos, criticam a forma como alguns pais e escolas deturpam (ou se acham no direito de alterar) os contos de fadas originais, supondo que, assim, estão "poupando" ou "protegendo" suas crianças de algum perigo ou ideia "subversiva", agindo com um zelo excessivo, como se as crianças devessem ser destacadas do mundo que as rodeia. É como bem diz Dumbledore, ironicamente, no comentário que aparece após o conto O bruxo e o caldeirão saltitante (que trata do uso de magia para ajudar as pessoas comuns, os trouxas):

"[...] Este preconceito foi gradualmente se extinguindo em face da avassaladora evidência de que alguns dos bruxos mais brilhantes do mundo foram, para usar o termo comum, 'amantes dos trouxas'.

A objeção final a 'O bruxo e o caldeirão saltitante' ainda hoje permanece viva em certos setores. Beatrix Bloxam (1794-1910), autora do abominável Os contos do chapéu-de-sapo, foi, talvez, quem melhor resumiu a questão. A sra. Bloxam acreditava que Os contos de Beedle, o Bardo prejudicavam as crianças por sua 'mórbida preocupação com assuntos horrendos como morte, doença, derramamento de sangue, magia perversa, personagens perniciosos, e efusões e erupções corporais repugnantes'. A sra. Bloxam reuniu uma coleção de histórias antigas, inclusive várias de Beedle, e reescreveu-as de acordo com os seus ideais, que, em suas palavras, 'incutiam nas mentes puras dos nossos anjinhos saudáveis pensamentos de felicidade, mantinham o seu doce repouso livre de sonhos maus e protegiam a preciosa flor de sua inocência'. [...]" (p. 16-17)

Mas, afinal, o que a referida sra. Bloxam conseguiu das crianças (certamente mais espertas) foi apenas isto:

"O conto da Sra. Bloxam provocou a mesma reação em gerações de crianças bruxas: incontroláveis ânsias de vômito, seguidas por imediatos pedidos para que alguém levasse o livro [dela] e o transformasse em pasta." (p.18)

Os contos de Beedle, o Bardo, é um livro bastante bem feito que deve agradar mesmo aqueles que ainda não conhecem o mundo de Harry Potter.

Mais alguns dados da obra:

Autora: J. K. Rowling (site oficial http://www.jkrowling.com/)
Ilustrações da autora
Título original: The tales of Beedle the Bard
Tradução: Lia Wyler
Rio de Janeiro, Rocco, 2008, 107 p.
Um percentual da venda dos livros é doado para a Children's High Level Group

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Marcelino Pedregulho - Sempé




Quando peguei o livro do Marcelino pela primeira vez, esperava encontrar os admiráveis desenhos do Sempé, que já conhecia de O Pequeno Nicolau e Monsieur Lambert. Acabei encontrando muito mais: uma estória delicada que fala de sensibilidade e amizades verdadeiras.

Marcelino Pedregulho é um menininho que fica vermelho, ruboriza sim, mas sem saber o porquê. Quando teria de ficar vermelho, não fica. Quando não precisaria ficar assim, aí fica. Pois bem, aos poucos o pequeno Marcelino vai ficando cansado de tanta gente perguntando - por que você está tão vermelho? aconteceu alguma coisa? e vai se afastando de todo mundo. Prefere brincar sozinho. Quem não preferiria?

Mas um dia, quando Marcelino está voltando para casa, escuta alguém espirrando - não um, não dois, nem três - mas muitos, muitos espirros. E é assim que ele conhece um menino que também é diferente - o Renê Rocha. Começam a conversar e daí surge a estória desta grande amizade que vai ter suas complicações, mas também vai conseguir vencer o tempo.

É livro de ler e não esquecer de ver, observar, olhar bem as imagens. Geralmente quem está mais acostumado apenas com os livros de textos acaba passando por cima dos desenhos, dando pouca importância a eles. Neste caso, atenção: as ilustrações, às vezes muito mais que o texto, despertam nossa sensibilidade para as delicadas situações que Marcelino e Renê vivem (observe, por exemplo, as das páginas 13, 20 e 21. Note como as ilustrações das páginas 14 e 15 conversam com as das páginas 40 e 41).

A Cia. Trucks de Teatro de Bonecos fez uma adaptação desta estória que ficou muito especial e pode ser conferida neste link da Revista Crescer. Nesse vídeo, para quem ainda não pegou o livro nas mãos, além de conhecer um pouco mais a estória, vai poder admirar os desenhos do Sempé e a simpatia da Cia. Trucks.

Espero que vocês possam apreciar a leitura deste livro tão especial e aproveito para desejar a todos um Feliz 2011!


Mais alguns dados da obra:

Autor e ilustrador: Jean-Jacques Sempé (1932- )
Título original francês: Marcelin Caillou
Tradução: Mário Sérgio Conti
Edição: Cosac Naify, São Paulo, 2009, 128p., 65 ils.
Publicado originalmente em 1969.


domingo, 10 de outubro de 2010

Folha - Stephen Michael King




A arte de Stephen Michael King encanta a partir da capa. Uma folha entre os cabelos de um garotinho.

Que estória poderá então sair daí? Livro de imagens com delicadeza de traços e pintura, ideal para a estória singela que brota das páginas.

Com as travessuras e descobertas típicas das crianças, no início, o personagem foge de cortar os cabelos, encontra um cãozinho e um passarinho travesso. Uma folha aparece ali entre os cabelos da criança.

Como cuidar dessa folhinha? E se o cabelo for cortado, o que acontece então? Descobertas, alegrias, apreensões e crescimento, ternura nas imagens desse excelente autor australiano.

Gostei tanto desse livro, que acabei mostrando para todo mundo que encontrava. Crianças, colegas do trabalho, pessoal da família - risos no início e, sem faltar ninguém, todos fizeram um "ahhhhh...." entristecido entre as páginas 48 e 50. Mas, prestando atenção às reações, pude ver em todos os rostos um sorriso leve e alegre ao chegar ao final da estória. Um belo livro!

Para conhecer mais algumas ilustrações e um pouquinho mais sobre o autor, consultem o site dele. Lá há exemplos das ilustrações, você conhece também outros livros do autor.
Gosto em especial da página sobre sua arte.

Além disso, para quem gosta de desenhar, as palavras do autor no vídeo abaixo são inspiradoras. Em uma tradução livre:

"Um professor me disse uma vez
Se você consegue desenhar um círculo
de qualquer tamanho
você pode desenhar qualquer coisa!
Todo mundo pode desenhar!
Se você pode escrever, você pode desenhar
Seja corajoso
Desenhe rápido
Grande
Divirta- se!"




Título original: Leaf
Autor e ilustrador: Stephen Michael King
Tradução: Gilda de Aquino
Tradução das onomatopeias: Paulo Chagas de Souza
Editora: Brinque-book, 1a. edição, São Paulo, 2008, 66p.
Publicado originalmente na Austrália em 2008.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Bisa Bia, Bisa Bel - Ana Maria Machado


Há alguns meses namoro esse livrinho nas prateleiras da seção infanto-juvenil de uma livraria. Achei o título meio misterioso e não me vinha nada na cabeça sobre o que pudesse significar, também me recusei a ler a sinopse na contracapa e nas orelhas do livro. De vez em quando faço isso, para não perder aquela sensação de descobrir por mim mesma o que se passa na história, quais emoções a leitura vai despertar.

Logo no começo do livro, já ficamos sabendo um pouco do que se trata. É Isabel, a menina narradora quem conta ter ficado surpresa ao encontrar a foto da sua bisavó ainda criança - a Bisa Bia. Daí começa uma leitura muito, muito prazeroza, divertida e sensível. É realmente um clássico da nossa literatura, daquelas histórias que vão durar muito, muito tempo, porque falam das pessoas que moram dentro de nós e por causa das quais nós certamente estamos por aqui, vivendo hoje. É uma obra que ganhou muitos prêmios desde que surgiu pela primeira vez em 1981.

Garota questionadora e sensível, Isabel conta coisas do seu dia a dia: conversa com a mãe, vai à escola, encontra os amigos, fica alegre, triste, como todo mundo, e vai se construindo, aprendendo a se entender e a entender o mundo à sua volta.

Marcante é como ela acaba percebendo o valor daqueles que vieram antes dela e também o valor que poderemos ter para aqueles que virão depois de nós. Histórias de outros entrelaçadas dentro dela mesma. Entrelaçadas dentro de nós.

O que sempre admiro nas obras da Ana Maria Machado é a forma como ela conta a história - que escritora! Um trechinho do começo só para dar o gosto:

"Minha mãe é gozada. Não tem essas manias de arrumação que muita mãe dos outros tem, ela até que vai deixando as coisas meio espalhadas pela casa, um bocado fora do lugar, e na hora em que precisa de alguma coisa quase deixa todo mundo maluco, revirando pra lá e pra cá. Mas de vez em quando ela cisma. Dá uma geral, como ela diz. Arruma, arruma, arruma, dois, três dias seguidos... Tira tudo do lugar, rasga papel, separa roupa velha que não usa mais, acha uma porção de coisas que estavam sumidas, joga revista fora, manda um monte de bagulho para a gente usar na aula de arte na escola. E sempre tem umas surpresas para mim - como um colar todo colorido e brilhante que um dia ela achou e me deu para brincar.

Pois foi numa dessas arrumações, quando minha mãe estava dando uma geral, que eu fiquei conhecendo Bisa Bia. Parecia até a história da vida do gigante, que minha tia conta. Sabe? Aquela história que diz assim [...]" p. 7


Tive muitas lembranças e também muitas saudades boas despertadas nessa leitura, principalmente de uma avó querida que morava com a gente e nos contava histórias quando pequenos...

Não deixem de ouvir também a própria Ana Maria falando um pouco da sua infância num trechinho de entrevista que ela deu ao Museu da Pessoa:





A edição conta ainda com ilustrações leves e soltas, gostosas de ver, da Mariana Newlands. Para conhecer mais sobre essa ilustradora, vale visitar o Ficções do Interlúdio.

Aqui no blog já comentamos também um outro livro da Ana Maria - o Raul da Ferrugem Azul.

Mais alguns dados da obra:
Ano da primeira publicação: 1981
Autora: Ana Maria Machado
Ilustradora: Mariana Newlands
Editora: Moderna/Salamandra. São Paulo, 3a. edição reformulada, 2007. 80 p.

sexta-feira, 26 de março de 2010

As penas do dragão - Arnica Esterl / Olga Dugina e Andrej Dugin


Mais uma edição de livro infanto-juvenil magistral - daquelas boas de ficar olhando sempre e de, a cada visão, descobrir coisas novas.

Trata-se de um conto da tradição oral alemã bastante interessante narrado por Arnica Esterl com ilustrações que tornam essa obra muito especial.

O personagem principal é um rapaz que se apaixona por uma moça, mas que deve realizar uma tarefa bastante difícil imposta pelo pai da amada - conseguir três penas de ouro do dragão. Aceito o desafio, o rapaz parte em sua busca, encontrando várias pessoas no caminho que também solicitam seu auxílio. Solidariedade, superação, astúcia e generosidade são conceitos que permeiam a narrativa.

As ilustrações dos russos Olga Dugina e Andrej Dugin não servem apenas para completar o texto, elas o enriquecem de uma maneira inesperada. Quanto mais você olha as imagens, mais se descobrem personagens e cenários intrigantes que parecem contar também uma estória paralela.

Numa atmosfera medieval, povoam as ilustrações seres míticos como unicórnios e estranhos personagens que me lembraram as obras de Bosch. E mais - o que seriam aquelas letras espalhadas aqui e ali? Uma fechadura em uma pedra? E os anões?

Algumas dessas intrigantes referências foram explicadas pelos autores em entrevista disponível no site da Cosac Naify, editora que só merece elogios. Muito bom livro!

Vale também visitar o site dos ilustradores: o Dugin Art.


Mais alguns dados da obra:

Título original: Die Drachenfedern
Autor: Arnica Esterl (1933 -)
Ilustrações: Andrej Dugin e Olga Dugina
Tradução: Tercio Redondo
Editora Cosac Naify, São Paulo, 2010, 30p., 28 ils.

Origem: conto popular alemão coletado por Ignaz e Josef Zingerle (1854)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Estela - Fada da floresta - Marie-Louise Gay


Mais um livro infantil daqueles especiais - gostoso de ver, de pegar, de cheirar, de ler...

Vamos desde o comecinho passeando com o pequeno Marcos e sua irmã Estela de cabelos vermelhos e revoltos. Ah, e não vamos esquecer o simpático cachorrinho que os acompanha o tempo todo.

Podemos ficar pensando, no comecinho da estória, que Estela, a mais velha, vá mostrar tudo, explicando, para o irmãozinho... Mas o bate-papo dos dois é bem mais interessante - é um bate-papo cheio de iluminações, de ambos os lados. Quer um exemplo?


"[...] - Aquilo é uma borboleta, Marcos - explicou Estela.
- As borboletas comem mel? - ele perguntou.
- Só as amarelas - respondeu Estela.
- Então as borboletas azuis comem pedacinhos do céu - concluiu Marcos.
- Como você sabe? - Estela perguntou." (p. 10-11)

Mas só as palavras e apenas uma citação não vão conseguir mostrar toda a graça dessa estória. Essenciais são também as imagens - as singelas ilustrações da canadense Marie-Louise: tudo bastante delicado, simples e bonito. Daquela simplicidade que sabemos ter sido bem planejada, bem gestada. Gostei de tudo, mas em especial das que estão nas páginas 14 e 15, 20 e 21 - que cores, que leveza... que sensação de ser criança de novo. Um passeio de descobertas!

Terminei o livrinho com a sensação de também querer ficar ali na floresta para sempre, mas ao mesmo tempo de sair correndo para comentar o que vi ali e também do que descobri na internet : uma entrevista com a autora na qual ela conta sobre seus personagens, sobre suas estórias e sobre como ela monta as suas ilustrações. Vale muito a pena conferir a própria autora contando sobre o seu trabalho.

Aqui a segunda parte - que trata da produção das obras. A primeira parte da entrevista pode ser conferida no link abaixo:



A primeira parte desta entrevista de Janice Barcellos e Claudia Erthal pode ser vista aqui.

Ah! e uma outra vontade grande - mostrar esse livrinho para a primeira criança que encontrar!

Mais alguns dados da obra:

Título original: Stella, fairy of the forest
Texto e ilustração: Marie-Louise Gay
Tradução: Gilda de Aquino
São Paulo: Brinque-book, 2006, 32p.
Publicação original: Canadá, 2002.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Fábulas - Liev Tolstói


Esta edição das Fábulas contadas por Tolstói é uma excelente adaptação para o público infanto-juvenil e, como tudo que é feito com cuidado, encanta a todos.

Além de o texto, traduzido diretamente do russo, ser claro, simples e gostoso de ler, as maravilhosas aquarelas do Cárcamo tornam esse pequeno volume indispensável.

Mais uma vez fiz a experiência de ler o livro com uma criança ao meu lado. Minha sobrinha (leitora mirim de 8 anos) e eu brincamos de ler em voz alta, alternando o narrador e os diálogos, comentando sempre as imagens.

O interessante é que ela já tinha lido, na escola, algumas adaptações de fábulas de La Fontaine e conseguiu identificar o gênero e também alguns pontos de contato entre as histórias. As favoritas dela foram O leão e o rato; A cadela e o reflexo (adoramos a cena da água); e O mosquito e o leão.

A minha favorita foi A oliveira e o capim, por tratar singelamente da importância da flexibilidade em nossas vidas; do valor de saber, quando necessário, calar e aguardar. O mais bonito ainda, nessa fábula, é ser contada em apenas duas páginas, belas aquarelas, manchas que a gente olha e olha, flexíveis como a fábula.

Um livro que a gente nunca se cansa de ler e apreciar.


Mais informações sobre a obra:

Autor: Liev Tolstói (1828-1910)
Seleção, adaptação e tradução do russo: Tatiana e Ana Sofia Mariz

Ilustrações: Cárcamo (Se você ainda não o conhece, não deixe de visitar o site e o blog desse excepcional mestre das aquarelas).

Edição: Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2009, 45p.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A princesinha medrosa - Odilon Moraes


O que nos faz ter medo? Que medos levam a outros a ponto de nos bloquear? E como superar isso?

Esse singelo livro de Odilon Moraes, com lindas aquarelas em uma bem cuidada edição da CosacNaif, trata desse tema. A estória começa com "Era uma vez uma princesinha que tinha medo do escuro." Mas é uma princesinha que resolve tomar algumas providências quanto a isso - só que um medo vai levando a outro, e mais outro, e onde tudo isso vai dar?

Já li o livrinho umas zil vezes e a cada momento descubro algo novo, principalmente nas ilustrações. Quanta coisa bonita, quanto detalhe delicado, desde a princesinha temerosa da capa até o cenário enluarado do final do livro... Vale prestar bastante atenção em todos os detalhes.
Tudo se encaixa, deleite para os olhos, deleite para a mente.

Gostoso também é ouvir o próprio autor falando de sua obra, nessa entrevista que está no site Letras e Leituras.

É possível ver algumas páginas da Princesinha no comecinho do vídeo em que o autor trata sobre a feitura de um livro infantil. Este vídeo é bastante interessante, porque mostra um pouco dos caminhos para construir o livro, desde a ideia e da concepção do projeto gráfico da obra. Mostra também outros títulos desse simpático autor:



Mais dados da obra:
Autor e ilustrador: Odilon Moraes
Publicação original em: 2002
Editora: CosacNaif
48p., 37 ilustrações, São Paulo, 2008

terça-feira, 12 de maio de 2009

Era uma vez... arte conta histórias do mundo (Exposição)



Uma exposição que está em cartaz em São Paulo e vale a pena visitar é "Era uma vez... arte conta histórias do mundo" com curadoria de Katia Canton e que relaciona a literatura de contos de fadas de várias partes do mundo com a arte.

É uma mostra de muito bom gosto em um espaço muito agradável - o Centro Cultural Banco do Brasil, um belo prédio antigo no coração da cidade.

Centro Cultural Banco do Brasil - São Paulo
uma vista do saguão

Como a mostra está distribuída nos vários andares do prédio, resolvi começar a visita pelo subsolo e foi uma das partes de que mais gostei. Lá as obras de arte foram organizadas de acordo com os países a que se referem as histórias de fadas ou contos populares. O gostoso foi poder ouvir narrações nos fones de ouvido, escutar as estórias, e então olhar, observar de pertinho as imagens (em várias técnicas - aquarelas, colagens, esculturas etc.), buscar a relação da história ouvida com a imagem...

Foi fascinante também descobrir como os contos de fadas têm ligação entre si e, dependendo do país, da época, são contados com variações, como acontece com a Cinderela (como geralmente conhecemos), que tem, entre outras, uma versão russa chamada O sapato de ouro.

No segundo e terceiro andares, a mostra destaca os contos do francês Perrault, dos irmãos Grimm (alemães) e do dinamarquês Andersen. As salas onde estão as obras têm decoração ligada a algum fato ligado à época/país de cada autor e nelas também ouvimos um pouco sobre os contos em som ambiente. Interessante perceber como a época, o local, as condições socioculturais influenciam na forma como as histórias são contadas. Gostoso também observar como os artistas elaboram suas obras tendo os contos como inspiração.

Uma mostra para curtir, ver com calma, ouvir sem pressa, apreciar cada sensação, cada lembrança dos contos de fadas, além de aprender, ficar sabendo de outros contos e pronto! ter a curiosidade aguçada para conhecer mais (foi o que aconteceu comigo com o conto Pele de Asno, do Andersen). Ir com crianças deve ser uma delícia também - em alguns dias há atividade de contação de histórias (ver programação no site do Centro Cultural Banco do Brasil).

Para saber um pouco mais sobre a mostra, há um vídeo no site da Folha, e mais informações no site do Centro Cultural.

A exposição fica em cartaz até o dia 21 de junho de 2009.

Centro Cultural Banco do Brasil - São Paulo
um olhar para cima

segunda-feira, 23 de março de 2009

Os irmãos coração-de-leão - Astrid Lindgren (2 - o livro)



Os Irmãos Coração-de-Leão conta as aventuras do valente Jonas e do frágil Carlinhos. Tudo começa com o pequenino Carlos, adoentado, em sua casinha modesta, onde vive com a mãe, falando com muita admiração do seu irmão mais velho Jonas. Mas esse é um livro cheio de surpresas...
"Vou falar agora sobre o meu irmão. É sobre Jonas Coração-de-Leão, o meu irmão, que quero falar. Acho que o que tenho a contar se parece muito com uma saga e um pouquinho com uma história de almas do outro mundo. No entanto, é a pura verdade, embora Jonas e eu sejamos provavelmente as únicas pessoas do mundo a saber disso." (p. 7)
Pois bem... e a poucas páginas do início, já temos um baque grande... o que terá acontecido a Jonas? Mas é um susto passageiro, porque as aventuras dos irmãos correm além do tempo e do espaço, e vão realmente começar quando eles se reencontrarem em Nangaiala, uma terra com toques medievais onde se pode viver grandes sagas, grandes aventuras.

A delícia do livro está em acompanhar o nosso frágil Carlinhos, em suas duras experiências, que servirão para mostrar-lhe as armadilhas escondidas na falsidade das aparências e dos preconceitos e, ao mesmo tempo, que o farão descobrir o caminho da coragem, da amizade e da ternura. É um caminho árduo, duro, em uma terra que está sendo tiranizada pelo vilão Tengil e pela sombra de Katla. Mais um trechinho instigador:

"- Adeus, meu pequeno - disse Matias. - Não se esqueça do seu avô.
- Eu nunca o esquecerei! - retruquei.
Escorreguei então, sozinho, até a passagem subterrânea, e arrastei-me pelo longo túnel escuro, falando comigo mesmo todo o tempo para não ficar muito assustado.
- Não faz mal que esteja escuro como breu. Não, você não vai ficar sufocado, de modo algum. É verdade que um pouquinho de terra está caindo no seu pescoço, mas isso não significa que o túnel vai desabar, seu bobo! Não, Dodô, o gordo, não vai ver quando você sair do outro lado. Ele não pode ver no escuro, não é? De certo que Jonas está esperando por você. Ele está lá, ouviu? Ele está lá!" (p. 117)

Astrid Lindgren consegue criar uma estória repleta de personagens fascinantes que lutam contra a opressão sem perder a suavidade - é Sofia, frágil e forte, com suas pombas brancas; é Matias, o vovô-amigo que luta e protege os meninos; é Hugo, o arqueiro... Consegue nos encantar com Carlos, um personagem com quem nos identificamos, mesmo que não queiramos (mesmo que desejemos ser sempre Jonas, o bravo). Todos os personagens mudam, mas é Carlos o que passa pelas maiores transformações, evoluindo com suas experiências, conforme as aventuras se sucedem.

Esta é a terceira vez que leio Os irmãos coração-de-leão, e sei que o lerei muitas mais... Assim é a boa literatura para todas as idades, aquela que encanta, que dura no tempo... que nos leva a Nangaiala e ao Vale das Roseiras Silvestres, que por um instante nos faz acreditar em mundos melhores, que nos faz sentir o verdadeiro prazer da leitura.

Nessa edição, que foi garimpada pra trazer lembranças antigas, temos também as graciosas ilustrações de Ilon Wikland, que tanto enriquecem o texto.

Carlinhos chega na estalagem Galo Dourado
Ilustração de Ilon Wikland (p. 36-37)


Para conhecer mais pouco do trabalho dessa ilustradora, um vídeo que faz propaganda de um DVD mostra alguns de seus desenhos. Pena que a narração esteja em sueco e, dessa língua, infelizmente não entendo absolutamente nada... mas é possível apreciar as imagens (essa grande desbravadora das fronteiras linguísticas)!



Para saber mais sobre a excelente escritora que foi Astrid Lindgren, clique aqui (em português) ou aqui para mais informações (website oficial).

Mais alguns dados da obra:

Autora: Astrid Lindgren
Tradução do sueco por: Maria Aparecida Moraes Rego (esta foi considerada uma das 10 melhores traduções de textos infanto-juvenis feitas no Brasil no ano de 1984)
Ilustrações: Ilon Wikland
Título original: Bröderna Lejonhjarta
Editora: Nórdica
Rio de Janeiro, 2a. edição, 1986

Obs.: a aventura da releitura deste lindo livro começou aqui.

Os irmãos coração-de-leão - Astrid Lindgren (1 - o achado)


Sofia e suas pombas brancas
Ilustração de Ilon Wikland
In: Os irmãos coração-de-leão de Astrid Lindgren (p. 40)



Como chegamos a um livro, por que decidimos ler este e não outro naquele momento, quais impressões fluíram durante o ato de ler - estes são alguns pontos que fazem com que algumas leituras também tenham sua história. As releituras, às vezes, duas ou mais delas - a do passado, a do presente.

A história da releitura de Os irmãos coração-de-leão começa, como já aconteceu outras vezes, com um passeio pela livraria. Mais uma vez, na seção de infantis, encontrei uma edição nova do livro agora pela Companhia das Letrinhas. A história lida há muito tempo estalou na memória - um livro lindo - mas daqueles que a gente empresta e que acabam não voltando (ganharam outros rumos...). Em decisão rápida - pronto - comprei a edição nova.

Vontade de começar a ler logo! Mas... fato estranho, a leitura não batia com a leitura da memória, com as emoções do passado, onde estavam as belas ilustrações que havia antes? Por que essa sensação? Fiz mais duas tentativas e a leitura continuava a não fluir... o tradutor era outro (a partir da versão inglesa do texto e não do original sueco), a edição outra, as ilustrações outras. E então a dúvida - será que, lá dentro, uma memória afetiva com o livro do passado ficara gravada?

O jeito foi recorrer aos sebos (nesse caso, a providencial Estante Virtual) e, maravilha, lá estava uma edição antiga a um preço camarada - o livro antes tinha sido editado pela Nórdica e tinha as ilustrações de Ilon Wikland. Comprado, foi só esperar o livrinho chegar pelo correio e, que alegria, tê-lo nas mãos! Agora sim... só o fato de pegá-lo, folheá-lo, já despertou as boas sensações que estavam guardadas em algum lugar.

E que delícia reler as aventuras de Jonas e Carlos Coração-de-Leão!
Para saber mais sobre o livro e sobre essa releitura, é só clicar aqui.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Raul da Ferrugem Azul - Ana Maria Machado (2)


Para quem, como eu, gostaria de saber como era a edição anterior do livro da Ana Maria Machado:

Foto gentilmente disponibilizada pelo McFly


O curioso foi que, quando olhei a capa do livro do McFly, lembrei de a ter visto na infância, apesar de não ter lido o livro na época. O desenho do Raul feito pela Patrícia Gwinner ficou, por algum motivo, gravado na memória!

Muito interessante observar as soluções que ilustradores diferentes encontram para a mesma estória (ver a capa do livro ilustrado pela Rosana Faría abaixo). Fiquei pensando como seria gostoso comparar as duas edições... bem... sebos, lá vou eu!

E, mais uma vez, um agradecimento especial para o McFly.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Raul da Ferrugem Azul - Ana Maria Machado (1)




Um fato interessante sobre manter um blog é que ele permite uma troca de informações muito rica com outras pessoas sobre assuntos que nos são queridos. A leitura de Raul da Ferrugem Azul surgiu da curiosidade despertada pelos valiosos comentários do McFly e da Júlia Bax no post A fada que tinha idéias. Foi uma dica muito bacana! Vejam só do que trata o livro:

Raul um dia descobre que está enferrujando, de uma ferrugem diferente - azul.

Mas como é Raul? Um garoto que percebe, que sente, que pensa bastante sobre tudo que está ocorrendo a sua volta e não consegue deixar de se indignar com alguns desses acontecimentos: é menino mais velho que persegue menino mais novo, indefeso, na escola; é falta de respeito dentro do ônibus; é falta de consideração com quem trabalha. Mas Raul é um menino quieto, tímido até, que não tem muita coragem de intervir - geralmente prefere uma saída mais tranquila ou prefere se calar.
"Mas essas eram coisas que Raul só pensava e não tinha coragem de falar. Vontade, bem que tinha. E raiva. Se tinha coisa que deixava ele furioso, essa era uma delas. Isso de achar que a cor das pessoas faz alguém ser melhor ou pior do que os outros. Isso de racismo, de qualquer tipo. Mas com toda raiva, não disse nada. Medo que rissem dele. Hábito de não falar das coisas que iam dentro da cabeça." (p.28)

Mas, de repente, essa quietude terá de mudar: uma ferrugem estranha, azul, está tomando conta dele (aparece nos braços, no rosto, na garganta), uma ferrugem que ninguém vê, só ele.

E o pior é não conseguir entender por que isso está acontecendo - passamos a buscar, então, junto com Raul, a solução para esse mistério.


É livro que se lê de uma vez, graças à leveza e à fluidez que Ana Maria Machado empresta ao texto. Aos poucos, Raul vai descobrindo (e nós também), que essa ferrugem não é visível por todos, mas que quase todos parecem tê-la em maior ou menor grau, em uma cor ou outra. Quantos de nós não estaremos assim, meio enferrujados, e pior de tudo - sem perceber? Então, o passo importante é perceber onde a ferrugem ataca e trilhar, como Raul, o próprio caminho da descoberta da cura, como diz o "velhinho da montanha":

"De repente, percebeu que o Velho falava com ele:
- Afinal, o que é que você quer, meu filho?
Raul hesitou, criou coragem, respirou fundo:
- Quero acabar com a ferrugem.
- Que ferrugem?
- A minha.
O Velho ficou muito sério e olhou firme para Raul. Depois, abanou a cabeça:
- É uma pena, meu filho, mas eu não posso fazer nada para acabar com a sua ferrugem. Só se fosse para acabar com a minha..." (p. 48)


No site da Ana Maria Machado, encontramos esse livro indicado no curioso link - "Para gente crescendo". E é isso mesmo - lendo quando crianças ou agora: continuamos crescendo sempre!


Outros dados da obra:

Primeira publicação: 1980
Ilustrações: Rosana Faría
52a. impressão. 2a. edição - São Paulo: Moderna / Salamandra, 2003. 64p.

Ao final dessa edição foi incluído o texto: Palavras da autora sobre a estória, no qual Ana Maria conta um pouco sobre a confecção dessa obra.

Ver também - Raul da Ferrugem Azul - Ana Maria Machado (2)
Da Ana Maria Machado, também falamos sobre o Bisa Bia, Bisa Bel

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A pequena marionete - Gabrielle Vincent




Branco. Preto. Imagens. Leveza.

Um menininho e um teatro de marionetes.

Deslumbramento e ternura - as sensações despertadas pela leitura deste livro de imagens. De imagens e emoções.

Antes de continuar: observe primeiro algumas imagens, clicando aqui (primeiro capítulo disponível no site da Livraria Cultura).

Vistas as imagens... Na primeira leitura que fiz do livro (sim, leitura), desta história criada pela artista belga chamada Gabrielle Vincent (pseudônimo de Monique Martin), descobri que não havia entraves lingüísticos (francês? português?) que pudessem tornar difícil a nossa comunicação, o nosso contato, que nos impedissem de compartilhar, como autora e leitora, esta singela história. As imagens falavam sem precisar de palavras.

Mas, há sempre quem se pergunte: como ler um livro sem palavras? Lembro então das palavras de Alberto Manguel em Uma história da leitura (Cia. das Letras, p. 19-20):

"Ler as letras de uma página é apenas um de seus muitos disfarces. O astrônomo lendo um mapa de estrelas que não existem mais; o arquiteto japonês lendo a terra sobre a qual será erguida uma casa, de modo a protegê-la das forças malignas; o zoólogo lendo os rastros de animais na floresta; o jogador lendo os gestos do parceiro antes de jogar a carta vencedora; a dançarina lendo as notações do coreógrafo e o público lendo os movimentos da dançarina no palco; o tecelão lendo o desenho intrincado de um tapete sendo tecido; o organista lendo várias linhas musicais simultâneas orquestradas na página [...] todos eles compartilham com os leitores de livros a arte de decifrar e traduzir signos. [...] Todos lemos a nós e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. Lemos para compreender, ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase como respirar; é nossa função essencial."

Aprender a ler as imagens, a observá-las, reparar em cada detalhe, tentar deixar-se levar pelo traço... é isso que tenho tentado aprender - ler, sentir, onde não há palavras também. Ainda que agora precise de todas elas para tentar descrever essa obra.

Melhor do que as palavras, contudo, é pegar o livro na mão e experimentá-lo. Reluto até em tentar descrever a sua linha narrativa...

A espontaneidade e a suavidade do traço da artista realmente encantam. Encontrei um trecho de um depoimento dela, em francês, que mostra um pouco de como era sua experiência, como ela criava os desenhos (abaixo segue o texto em francês e uma tentativa de tradução para o português):


«[...] Les histoires que je dessine sont souvent des histoires vécues ou observées. J’en ai le scénario dans la tête, et lorsque je prends le crayon, puis la plume, tout vient très vite. Je dessine un peu comme une somnambule, comme si ce n’était pas moi. D’où, sans doute, cette façon que j’ai d’être le spectateur de moi-même, de ne pas arriver à me prendre au sérieux. Presque toujours, c’est le premier croquis qui est le bon, j’aime la spontanéité.» (texto extraído do site da Casterman)

"[...] As histórias que desenho são geralmente histórias vividas ou observadas. Tendo o cenário em mente, e assim que pego o lápis, depois a pena, tudo vem muito rápido. Desenho um pouco como uma sonâmbula, como se não fosse eu. De onde, sem dúvida, este jeito que tenho de ser o expectador de mim mesma, de não chegar a me levar a sério. Quase sempre, é o primeiro esboço que fica bom, eu amo a espontaneidade."


E, para além das sugestões de atividades com as crianças que aparecem no final dessa edição lida, imagino que a primeira delas deveria ser colocar o livro nas mãos da criança... sem falar muito... sem palavras... e observar suas reações, deixá-la saborear as imagens sem muita intervenção.

Para descrever este livro, as palavras me traem e, ao mesmo tempo, são meu instrumento.

Um livro, imagens-poesia. Lindo.


Outros dados da obra:

Título original: La petite marionnette
Autora: Gabrielle Vincent (pseudônimo de: Monique Martin - 1928-2000)
São Paulo, Editora 34, 2007, 84p.

Arte: é possível ver um pouco do trabalho da autora nas páginas que estão disponíveis no site Amazon para outra obra dela - Um dia, um cachorro, clicando aqui.