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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Caçadores de obras-primas - Robert M. Edsel com Brett Witter




Apesar de gostar muito de História, quando se trata de leituras, acabo sempre deixando os livros do tema e as biografias um pouco para depois, principalmente se aparecerem outros de ficção, suspense, contos, poesias, na minha pilha infinita... Geralmente prefiro ler as ficções baseadas na história. Foi assim que descobri há um ano e meio, em um dos passeios pela livraria, este livro que trata dos Monuments Men. Ele estava ali, na ala de História, mas com uma chamada que trazia obras de Arte e Segunda Guerra Mundial juntas e isto fisgou minha atenção.

É uma obra organizada a partir de pesquisas sobre as vidas e depoimentos de homens e mulheres que vivenciaram a Segunda Guerra Mundial, com uma narrativa baseada em fatos históricos que aconteceram no período de 1943 a 1951. Segundo o autor:
"Tomei a liberdade de criar diálogos para manter a continuidade, mas em caso algum eles tratam de questões importantes e sempre estão baseados em extensa documentação. Em todos os momentos tentei não apenas compreender e comunicar os fatos, mas também as personalidades e perspectivas das pessoas envolvidas, assim como suas percepções dos acontecimentos no próprio instante em que ocorreram. Com a vantagem da visão em retrospectiva, estes podem ser muito diferentes de nossas opiniões; portanto, um dos grandes desafios da história. Qualquer erro de julgamento será de minha inteira responsabilidade.
Em sua essência The Monuments Men é uma história pessoal: uma história sobre pessoas." (Caçadores de obras primas, R. Edsel, p. 14-15).
O autor conseguiu organizar o trabalho deixando a leitura bastante fluida. E ainda tem como ponto forte, para mim, o fato de os capítulos estarem intercalados com documentos e cartas dessas pessoas que estiveram na arena da guerra e se esforçaram para conservar e recuperar obras de arte que estavam deixando seus países de origem. A edição da Rocco possui, logo no começo, fotos de integrantes do grupo, com pequenos resumos de suas biografias; também apresenta mapas, fotografias da época e uma boa bibliografia ao final para quem quiser se aprofundar mais no tema.

Várias passagens do livro acabaram me emocionando bastante ao resgatar o sofrimento causado pela guerra... Há trechos das cartas que as famílias trocavam entre si, tentando diminuir a distância, tentando manter a esperança. Na narrativa montada pelo autor, vamos conhecendo desde o momento em que o trabalho do MFAA (Monuments, Fine Arts, and Archives program) foi concebido e as dificuldades que seus integrantes enfrentaram com o reduzido número de homens que foi destacado para a gigantesca tarefa de mapear e tentar preservar monumentos e obras de arte durante a guerra. Há registros das privações, das batalhas, da destruição, das perdas, que todos vão passando, e também as histórias do contato com a população local, além dos vários relatos de solidariedade...

Lembrando apenas um dos trechos que me comoveram, entre vários outros, destaco aquele que trata da Madona de Gleize (capítulos 20 e 25) que descrevem como W. Hancock viu a cidade de La Gleize antes de uma batalha e como a encontrou depois.

É muito interessante acompanhar o contato dos soldados com a população local, e como o monuments man percebe que, diferentemente do olhar dele, de estrangeiro e interessado em arte que queria retirar a estátua da Catedral que estava ruindo, ali, naquela comunidade, a singela estátua não era uma obra de arte, mas sim um símbolo, uma força integrante da vida daquelas pessoas:
"Hancock virou-se para ver um homem baixo, de queixo quadrado, erguendo-se de sua cadeira.
- Seja razoável agora... - Monsieur George protestou, mas o homem recusava-se a ceder. Ela [a Madona de Gleize] havia sobrevivido à batalha, ele disse. Ela era tudo que restava de suas antigas vidas. Ela era a comunidade agora. Era a graça de Deus; a salvação deles. Quem era esse estrangeiro, esse... Americano, para lhes dizer o que tinham de fazer? Ela devia ficar onde sempre esteve, na catedral. Mesmo que a maior parte da catedral não existisse mais..
- Concordo com o tabelião - disse o pedreiro.
Uns poucos se ajeitaram nas cadeiras. Hancock olhou ao redor da sala para seus rostos desolados e ataduras visíveis. A Madona não era arte para eles, percebeu; ela representava suas vidas, sua comunidade, sua alma coletiva. Por que escondê-la em um porão, eles estavam pensando, quando nós precisamos dela agora mais do que nunca? Ela havia triunfado. Eles não conseguiam reconhecer, depois de tudo que tinham passado que o perigo podia voltar." (Caçadores de obras primas, R. Edsel, p. 180-181).
[depois a estátua acaba sendo retirada com a ajuda dos moradores]
Tudo isto leva também à reflexão sobre o que são as obras de arte, como são vistas e sentidas, qual o seu papel e seu efeito na vida das pessoas.

A Segunda Guerra Mundial é um tema vasto e sempre intrigante, e encontrar este livro foi um grande achado. Depois que a gente começa a ler, fica se indagando: como ainda não tinha visto nada sobre o trabalho desses homens e mulheres? Quando comecei a lê-lo, ainda não se falava muito do filme que estreia esta semana aqui em São Paulo, com direção do George Clooney e é baseado no trabalho dos Monuments Men.



Também no cinema, sobre essa questão das artes na Segunda Guerra, há um filme de 1964 - O Trem - com direção do John Frankenheimer, e Burt Lancaster e Jeanne Moreau no elenco. Trata-se de um filme muito bem feito, focando mais nas questões humanas e no trabalho da resistência francesa para impedir que o trem, carregado de obras de arte, deixasse o país (no livro Caçadores de Obras Primas há uma  passagem sobre o trem no capítulo 21, p. 151-159). Neste filme, ao final, também fica um grande ponto de interrogação - o que é mais importante afinal: as obras de arte perdidas ou as pessoas que se perderam, que morreram, tentando recuperá-las?




Demorei bastante para concluir esta leitura, porque não me consegui ficar apenas no material do livro. Cada obra de arte que era citada, cada cidade, cada fato histórico, acabou rendendo várias pesquisas na internet e em outros livros para conhecer mais, para ver as imagens, os lugares.

Outro detalhe importante é não deixar de manter o senso crítico bem alerta, lembrando que toda História tem várias facetas e não apenas uma. Este livro traz uma dessas facetas, contudo há várias outras a serem exploradas. Enfim, como já disse aqui outras vezes, gosto muito desses livros que fazem a gente querer mais!

Mais alguns dados da obra:

Título: Caçadores de obras-primas. Salvando a arte ocidental da pilhagem nazista.
Título Original: The monuments men: Allied heroes, Nazi thieves, and the greatest treasure hunt in history
Autor: Robert M. Edsel
Tradução de: Talita M. Rodrigues
Primeira publicação: 2009
Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2011, 367p.
Site do Monuments Men: http://www.monumentsmen.com/



terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Contos de lugares distantes - Shaun Tan




Muitas pessoas leem os livros com ilustrações como se as imagens não tivessem tanta importância para a história que está sendo contada. Na escola (pelo menos quando estive por lá, o que já faz um tempinho rs), somos preparados desde bem pequenos para ler o texto: primeiro as letras, depois as palavras, as frases, o texto todo e, então, tentar progredir para captar os significados, deixar a imaginação à solta – é um grande estudo que leva anos e segue pela vida toda. Mas fico com a impressão de que a mesma atenção não é dada às artes visuais, às imagens, às ilustrações. 

Será que não deveria haver um espaço também para estudos nesse sentido? Por que não discutir as formas, as cores, as linhas, tentar analisar por que uma imagem tem esta ou aquela composição, por que esta fotografia foi escolhida para uma matéria de jornal e não aquela, que carga de significado está por trás disso?

Quando lemos o excelente Contos de Lugares Distantes, não temos como nos fixar apenas ao texto. O livro foi concebido para ser lido em conjunto texto + imagem. As imagens não podem ser vistas sem atenção - se isso for feito, a compreensão do significado ficará prejudicada. Como consta em texto sobre o autor no final do livro (p. 100), para Shaun Tan: “As ilustrações são o principal ‘texto’ de seus livros”. Daí que é difícil olhar para as imagens apenas para dizer “que bonito”. Claro, isto também e mais - são lindas as imagens, intrigantes, mas é preciso atentar para o fato de que elas estão lá como parte da tessitura, entranhadas no que se quer contar.

Nestes tempos de pressa, de ansiedade, de correria, os contos do Shaun Tan me fazem desacelerar, ler com calma, vendo com atenção, degustando, como se aprecia um bom vinho (ou uma boa cerveja gelada, se estiver um calor absurdo como o que anda fazendo este verão).

São vários contos com diferentes concepções que tratam de eventos que, se acontecessem, tornariam o nosso dia menos óbvio ou, ao menos, nos fariam parar para refletir.

Em Eric, um dos meus contos preferidos, por exemplo, depois do título aparece uma ilustração com o Eric e, na sequência, o texto começa assim:
"alguns anos atrás, um estudante de intercâmbio veio morar conosco. Achávamos muito difícil pronunciar seu nome corretamente, mas ele não se importava. Dizia para chamá-lo simplesmente de 'Eric'.” (p.8).
As imagens carregam sentido, causando um estranhamento - o Eric é realmente diferente do que poderíamos esperar de um estudante de intercâmbio. O conto me fez pensar sobre o convívio com o estrangeiro (com o estranho): o quanto realmente sabemos do outro, como vemos o diferente, como lidamos com ele. E daquela sensação que fica de que, talvez, pudéssemos ter feito melhor - sensação reforçada pela delicada imagem que encerra o texto.

Em outro conto, Chuva ao longe, o texto está dentro das imagens, nos pequenos fragmentos recortados. Nos pedaços de poemas que alguém sempre se arriscou a escrever, mas que ficou esquecido, perdido, escondido, por aí. O interessante é acompanhar o conto para saber o que pode acontecer com esses poemas.

Em História do Vovô, as imagens carregam metáforas sobre o ritual (?!) que precedeu  o casamento do avô e que ele está contando para os netos - do que ele precisou passar para chegar à união. Nesse conto, além das imagens-metáforas de cada estágio pelo qual o casal teve de passar, as cores também têm um papel fundamental.

Parar para observar cada imagem prestando atenção à arte é um dos pontos altos da leitura - o Shaun Tan mistura (e domina) várias técnicas em suas ilustrações – tem acrílica, guache, grafite, óleo; tudo com traço e estilo marcantes. 

Por isso, gosto tanto deste livro e recomendo a leitura. Porque ele nos causa estranhamento, tem um quê de surreal que desperta a imaginação e muitas reflexões. Da primeira vez, acabei de ler os contos com um sorriso e um baita ponto de interrogação. Será que entendi tudo que estava lá? E o bom foi descobrir que não! Ótimo - assim posso voltar ao livro (esta já é a terceira vez), sempre descobrindo mais alguma coisa que não tinha visto antes. E não é isso mesmo que devem fazer as grandes obras?


Quarta capa do livro, na excelente edição da Cosac Naify,
 com texto do Neil Gaiman (muito bom!)


Mais alguns dados da obra:

Título original: Tales from Outer Suburbia
Autor e ilustrador: Shaun Tan (1974 - )
Tradução: Érico Assis (O Érico também comentou sobre este livro no Blog da CosacNaify)
São Paulo: Cosac Naify, 2012, 104p., 49 ils.

P.S.: às vezes, o livro também aparece classificado como “história em quadrinhos”. Estranho... Não me parece que esta seja uma boa classificação, mas também acho que o livro não se enquadraria muito bem em nenhuma outra. Contos, como diz o próprio título, talvez..., um livro de instantâneos de vida.

P.S.2: Um pouco mais sobre o Shaun Tan. The Evolution of an Idea (em 3 partes, com Neil Gaiman e Eddie Campbell). Aqui a primeira parte:




terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O BGA - Roald Dahl




Quando Sofia ficou acordada de noite, em um horário meio perigoso para se estar acordado, bem de madrugada, na chamada hora das bruxas, acabou se deparando com algo que nem ela, nem nós, imaginávamos: o BGA, uma sombra estranha, gigante, que espiava pela janela das casas.

O que era o BGA, ela fica sabendo logo depois - o Bom Gigante Amigo, que tem uma maneira muito peculiar e divertida de falar, mas mora num lugar perigosíssimo cheio de outros gigantes comedores de "serumanos". Além disso, o BGA tem umas ideias que mexem com a cabeça da Sofia:
"(...) Gigante não dorme muito, só assim de quando em vez. Não é feito os serumanos, que adora tanto dormir. Você já prestou atenção que um serumano de cinquenta anos passou menos ou mais vinte anos dormindo pesado?
- Confesso que nunca tinha pensado nisso - disse Sofia.
- Não precisa confessar, só pense, por favor - disse o BGA. - Pense assim. Esse serumano de cinquenta anos que nós tá falando dele, de verdade ele passou vinte anos dormindo sem nem saber aonde! Sem fazer nada! Sem nem pensar em nada!
- É uma ideia engraçada." (O BGA, 2009, p. 117)
Outra característica muito bacana do BGA é que ele sabe como encontrar os sonhos e capturá-los, para depois soprar nas janelas das crianças, para que tenham sonhos bem legais.

A grande aventura do livro começa quando Sofia e o BGA resolvem fazer alguma coisa para se livrar dos outros gigantes que comem gente. E até a rainha da Inglaterra vai entrar na história!

É um livro divertidíssimo e gostoso de ler, escrito por um autor muito especial, o Roald Dahl, que é também autor de Matilda e James e o Pêssego Gigante, que acabaram virando filmes.

Um destaque para a tradução da Angela Mariani que conseguiu manter a graça do original, criando palavras que ficaram muito interessantes e engraçadas em português. Outro detalhe desta edição: as ilustrações do Quentin Blake - que podem ser vistas no site do autor:  http://www.quentinblake.com/gallery/illustrations

Ou seja, se você ainda não leu nada do Roald Dahl (como eu ainda não tinha lido), experimente. É daqueles autores que a gente acaba um livro e já sai correndo atrás de outros títulos. Já estou de olho em um que está nas livrarias e se chama: As bruxas. Bom... tem também A fantástica fábrica de chocolate e Matilda que só conheço dos filmes. Como é bom quando a gente encontra um autor que dá vontade de ler a obra inteira!

Mais alguns dados da obra:

Título original: The BFG
Autor: Roald Dahl (1916-1990)
Tradução: Angela Mariani
Ilustrador: Quentin Blake
São Paulo, Editora 34, 2009, 2a. ed., 288p.

Atualizando (03/01/2014):
Existe também uma animação, de 1989: The BFG (em inglês) - trailer no youtube:




terça-feira, 3 de abril de 2012

Diário da Guerra do Porco - Adolfo Bioy Casares



Incômodo foi o sentimento que surgiu nos primeiros capítulos do livro de Casares. E não foi uma sensação que passou depois. No desenrolar da trama, acabamos percebendo que o livro parece ter sido estruturado de maneira a criar esta sensação, entre tantas outras. Fazer pensar na passagem do tempo, no envelhecimento.

Acompanhamos a narrativa das vivências e pensamentos de Isidro Vidal, um senhor de quase 60 anos, que vive com o filho.  Os idosos do lugar estão passando por dificuldades devido a um movimento que acontece de forma estranha. É a Guerra do Porco. Os jovens estão se rebelando contra os velhos, por motivos difusos que, por vezes, acabam dividindo os próprios jovens.

As dúvidas e medos que rondam Dom Isidro e seus amigos, que têm de passar por situações tantas vezes vexatórias, também nos afligem. Há idosos desaparecidos, mortos, feridos... e muitos tentando viver em meio a um  medo generalizado...
"(...) Dessas lembranças Vidal passou a outras, dos últimos dias de seu pai. Lembrava-se dele, tão próximo e já tão fora do alcance, no medo e na dor da morte. Cada qual está em si mesmo e nada pode fazer pelo próximo. Vidal sentiu uma desolada certeza sobre a inutilidade de tudo. O que foi aquele afã de falar - pura vaidade - que lhes havia dado naquela noite? Entre eles, sabiam de antemão o que um e outro iam dizer. Pensou que falar assim no velório de um amigo era uma ofensa repugnante e que agora ele continuava falando. Parecia que tinha sido ontem que levavam uma existência despreocupada; de repente, a própria condição da vida tinha se tornado intolerável. Deu vontade de fugir. (...)" (p. 107)
Em formato de "diário", há algumas marcas temporais que indicam que a trama se passa em pouco mais de uma semana: de 23 de junho aos primeiros dias de julho. Contudo a sensação da leitura, tão intensa, é a de que o tempo é outro, mais longo, tempo trazido das lembranças, do passado e das vivências daquele momento.
Esse ponto me intrigou tanto que despertou o interesse de fazer uma segunda leitura (quem sabe uma terceira também?) somente para atentar para essa questão do tempo...

A narrativa é impecável. Casares, esse mestre argentino da escrita, nos atinge com aquela força típica das  grandes obras literárias. Suas palavras ficam ecoando na mente muito e muito tempo depois de fecharmos o livro.

Para saber um pouco mais sobre Bioy e sua obra, não deixe de assistir a entrevista de 1998 (em espanhol), disponível no youtube, clicando aqui.

Mais alguns dados da obra:

Autor: Adolfo Bioy Casares (1914-1999 - Buenos Aires, Argentina)
Título original: Diario de la guerra del cerdo
Tradução: José Geraldo Couto
Edição: São Paulo, Cosac Naify, 2010, 208 p., 4 ils.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Píppi Meialonga - Astrid Lindgren




Píppi Meialonga é uma menina diferente e, principalmente, independente, cheia de atitudes e ideias que costumam chacoalhar alguns pensamentos não muito acostumados a sair do lugar.

Para alguns, ela pode até assustar à primeira vista - mas quem não fica um pouco intrigado com o que vê pela primeira vez? Afinal, Píppi é uma criança, mas veio morar sozinha na Vila Vilekula, tem um macaco como companheiro permanente, o Sr. Nilson, e um cavalo que mora na sua varanda, além de ser uma garota muito, mas muito forte mesmo.

Essa famosa personagem da literatura infantil mundial, criada pela Astrid Lindgren lá nos idos de 1945, continua (e como continua) extremamente atual e instigante. Por quê? Principalmente pelo inusitado, pelo bom humor e por questionar lugares comuns meio bolorentos. É o que acontece, por exemplo, quando os policiais são chamados para tentar levar a garota para um lar de crianças:
"[...] Depois acrescentaram que algumas pessoas bondosas da cidade estavam tomando providências para conseguir uma vaga para ela num lar de crianças.
- Já tenho minha vaga num lar de crianças - disse Píppi.
- Como assim? A questão já foi resolvida? - perguntou um dos policiais. - Onde fica esse lar de crianças?
- Bem aqui! - disse Píppi, orgulhosa. - Eu sou uma criança, e este é meu lar, portanto este é um lar de criança. E aqui tem vaga de sobra pra mim. [...]
- É, mas você não entende que tem de ir à escola? - insistiu o policial.
- E por que tenho de ir à escola?
- Para aprender as coisas, óbvio!
- Que tipo de coisas?
- Todos os tipos de coisas - disse o policial -, um montão de coisas úteis. A tabuada, por exemplo.
- Faz nove anos que vivo muito bem sem tamburada - disse Píppi - E não vejo nenhuma razão para não continuar assim. [...]" (p.38-39)
E mais adiante, quando o policial pergunta se ela não vai ficar com vergonha se alguém lhe perguntar qual é a capital de Portugal e ela não souber responder:
" - É, mas você não acha que ia ficar chateada por não saber?
- Pode até ser - disse Píppi - Com certeza eu ia ficar noites e noites acordada pensando: 'Como é mesmo que se chama a capital de Portugal?'. Mas a pessoa não pode passar o tempo todo se divertindo - disse, e para variar um pouco trocou de posição e começou a se equilibrar nas mãos em vez de ficar em pé. - Aliás, já estive em Lisboa com meu pai - continuou, ainda de cabeça para baixo, pois também conseguia falar nessa posição." (p. 39)
Conheci os livros da Píppi faz pouco tempo e um dos aspectos que me agradou foi que, na maior parte do tempo, as perguntas por quê? como? isso poderia ser diferente? foram encaminhando o pensamento durante a leitura.

Em sua narrativa fluente, cheia de encanto e alegria, Astrid nos faz acompanhar as várias aventuras de Píppi,  e seus amigos Tom e Aninha que acabam aprendendo com ela a brincar de verdade. A personagem acaba mostrando a outras crianças um forte senso de justiça e, aos adultos, que não são sempre eles que sabem tudo - todos precisam suspeitar de suas certezas. Além disso, Píppi é uma figurinha muito simpática e bastante aberta a questionar a si mesma:
" - De onde você tirou que eu nunca estive no Egito? Pois estive! Fique sabendo que eu já estive em todos os lugares do mundo e já vi muitas coisas bem mais estranhas do que pessoas andando de costas [...]
- É tudo mentira sua - disse Tom.
Píppi pensou um pouco.
- É você tem razão. É mentira - disse ela, chateada.
- É feio mentir - disse Aninha, que finalmente tinha criado coragem de abrir a boca.
- É mesmo, é muito feito mentir - disse Píppi, ainda mais triste. - Mas de vez em quando eu esqueço, entende? E você acha mesmo que uma menina que tem uma mãe que é um anjo e um pai que é rei dos canibais, uma menina que passou a vida inteira navegando mar afora, tem de ficar o tempo todo dizendo a verdade? E aliás... - [...]" (p.15-16)
Um destaque da edição da Companhia das Letrinhas são as ilustrações do Michael Chesworth, ilustrador americano também responsável pelas imagens de Píppi nos Mares do Sul e Píppi a Bordo. As imagens são tão divertidas e instigantes quanto o texto.

Mas o principal - este livro nos proporciona um grande prazer - é muito divertido viajar pelo mundo da Píppi Meialonga!


Mais alguns dados da obra:

Autora: Astrid Lindgren (1907-2002)
Título original: Pippi Långstrump (1945)
Tradução do sueco por: Maria de Macedo
Ilustrações: Michael Chesworth (site - http://www.crashbangboom.com/)
Edição: Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2001, 156 p.

E mais algumas informações sobre a Píppi e sua criadora:

- Uma entrevista com a Astrid Lindgren (em inglês) está disponível no site Astrid Lindgren´s World;
- As peripécias da menina de tranças esticadas ganharam uma série para a TV em 1969 e adaptações para o teatro;
- A autora tem por volta de 80 livros publicados traduzidos para diversas línguas;
- No Brasil, além de Píppi Meialonga, foram traduzidos: Píppi a Bordo e Píppi nos Mares do Sul.
- Aqui no blog já comentamos também sobre Os irmãos coração de leão.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O Fantasma de Canterville - Oscar Wilde


"Uma crônica divertida das atribulações do Fantasma de Canterville quando seus salões ancestrais se tornaram o lar do embaixador americano junto à Corte de Saint James." (O.Wilde)


A estória começa com uma família tipicamente americana (os Otis) que, na Inglaterra, resolvem adquirir a propriedade onde habita um célebre e terrível fantasma, a despeito dos avisos de seu proprietário, Lorde Canterville, e do medo expressado pelos criados da casa.

Com um ceticismo característico, a nova família questiona a presença do fantasma. Contudo, em determinado momento, a existência da entidade não pode mais ser negada, o que, entretanto, não intimida os novos moradores - os filhos gêmeos, por exemplo, não hesitam em pregar várias peças no espírito, e o mais velho, Washington, recorre a vários recursos para tentar desbaratar as ações sobrenaturais.

É bastante interessante como o escritor vai apontando os sentimentos do fantasma ao se ver tão desprezado, ao mesmo tempo em que vai se lembrando como sempre fora tão temido. O que estaria mudando? Nesse ponto, a narrativa que vinha sendo feita em terceira pessoa, dá voz ao fantasma, passando à primeira pessoa.

O único membro da família que parece se sensibilizar com a, agora, triste figura é a delicada Virgínia, que terá papel importante na redenção do fantasma, mas isto só poderá ocorrer se uma velha profecia se concretizar... afinal ele havia cometido um crime horrível.

Mais do que uma simples estória de fantasmas, nessa narrativa, Wilde brinca com contrastes existentes entre as culturas inglesa e americana. Ironiza em vários momentos o tradicionalismo inglês e as "modernidades" e o racionalismo americanos, como quando os novos habitantes recebem da governanta da casa explicações sobre uma mancha de sangue no assoalho que teria origem sobrenatural:

"A velha mulher sorriu e respondeu com a mesma voz baixa, misteriosa: 'É o sangue de Lady Eleanore de Canterville, que foi assassinada exatamente naquele lugar pelo marido, Sir Simon de Canterville, em 1575. Sir Simon sobreviveu a ela nove anos e desapareceu de repente, em circunstâncias muito misteriosas. Seu corpo nunca foi encontrado, mas seu espírito culpado ainda assombra a Quinta. A mancha de sangue foi muito admirada por turistas e visitantes e não pode ser removida'.

'Isso tudo é um disparate', exclamou Washington Otis. 'O Campeão dos Tira-Manchas Pinkerton e o detergente Paragon vão removê-la num instante.' E, antes que a apavorada governanta pudesse interferir, ele se ajoelhou e esfregou o chão rapidamente [...]" (p.14-15)

Bastante irônico e até cômico ao início (não há como conter o riso em algumas passagens), aos poucos o livro vai ganhando um toque mais sensível e culmina com uma mensagem bem mais profunda, ao final, sobre o tema vida e morte ... Diz Virgínia:

"Não me peça tal coisa, Cecil, não posso dizer-lhe nada. Pobre Sir Simon! Devo muito a ele. É isso mesmo, não ria, Cecil. Mostrou-me o que é a Vida, o que significa a Morte e por que razão o Amor é mais forte do que a Vida e a Morte." (p.60)


Ilustração de Lisbeth Zwerger (p. 35)

Este foi mais um clássico que valeu a pena conhecer e cuja leitura se tornou ainda mais agradável na indispensável edição da Berlendis & Vertecchia, pelas delicadas ilustrações da premiada artista Lisbeth Zwerger. As imagens completam o texto com um toque bastante especial. Outras aquarelas da artista podem ser vistas no blog Entre lápis e pincéis.

Mais alguns dados da obra:

Texto integral
Autor: Oscar Wilde (1854-1900 - Irlanda)
Título Original: The Canterville Ghost
Tradução e Notas de: Renata Lucia Bottini
Ilustradora: Lisbeth Zwerger (1954 - Áustria)
Editora Berlendis & Vertecchia, São Paulo, 2009, Coleção Os meus clássicos, 63 p.


sexta-feira, 13 de maio de 2011

Os contos de Beedle, o Bardo - J. K. Rowling




Quem é fã da série Harry Potter da escritora britânica J. K. Rowling já conhecia Os Contos de Beedle, o Bardo, como um livro infantil existente no mundo dos bruxos.

Mas, mais do que isso, em As Relíquias da Morte, um exemplar desse pequeno livro foi deixado como uma herança especial do Prof. Dumbledore para a Hermione, e teve papel crucial nos eventos sombrios que se sucederam na batalha contra o famigerado Você-Sabe-Quem.

A curiosidade sobre esse livro infantil não deixou de ficar latente por aqui (no mundo dos não-bruxos) e, em 2008, veio à luz em uma nova edição que, conforme a autora, foi traduzida diretamente das runas originais pela própria Hermione, com uma compilação de comentários que Dumbledore havia feito, no passado, sobre os contos. Assim, Rowling, incluindo suas próprias ilustrações, permitiu que também nós conhecêssemos mais esse detalhe que envolvia as crianças de Hogwarts.

O livro contém cinco contos interessantes de tempos remotos, transmitidos através das gerações pelos adultos bruxos a seus filhos e alunos. Nessa simpática edição constam: O bruxo e o caldeirão saltitante; A fonte da sorte; O coração peludo do mago; Babbity, a coelha, e seu toco gargalhante; e O conto dos três irmãos (que ganhou uma belíssima animação no filme As relíquias da morte, parte 1 - é possível vê-la, por enquanto, clicando aqui).

Gostei bastante dos dois primeiros, em especial de A fonte da sorte, que trata de superações e companheirismo. Os comentários de Dumbledore são também muito interessantes, contudo talvez interessem mais a adolescentes e adultos e não tanto às crianças. Minha sobrinha de 10 anos devorou os contos, mas deixou os comentários para ler depois. Esse tipo de obra me fez lembrar a estrutura de as Histórias da Tia Nastácia (Monteiro Lobato), guardadas as evidentes diferenças, claro. No clássico nacional, também Emília, Pedrinho, Narizinho e D. Benta comentavam e criticavam as fábulas e as estórias de fadas contadas pela nossa bondosa tia quituteira.

Rowling foi bastante perspicaz ao incluir esses comentários que, em alguns momentos, criticam a forma como alguns pais e escolas deturpam (ou se acham no direito de alterar) os contos de fadas originais, supondo que, assim, estão "poupando" ou "protegendo" suas crianças de algum perigo ou ideia "subversiva", agindo com um zelo excessivo, como se as crianças devessem ser destacadas do mundo que as rodeia. É como bem diz Dumbledore, ironicamente, no comentário que aparece após o conto O bruxo e o caldeirão saltitante (que trata do uso de magia para ajudar as pessoas comuns, os trouxas):

"[...] Este preconceito foi gradualmente se extinguindo em face da avassaladora evidência de que alguns dos bruxos mais brilhantes do mundo foram, para usar o termo comum, 'amantes dos trouxas'.

A objeção final a 'O bruxo e o caldeirão saltitante' ainda hoje permanece viva em certos setores. Beatrix Bloxam (1794-1910), autora do abominável Os contos do chapéu-de-sapo, foi, talvez, quem melhor resumiu a questão. A sra. Bloxam acreditava que Os contos de Beedle, o Bardo prejudicavam as crianças por sua 'mórbida preocupação com assuntos horrendos como morte, doença, derramamento de sangue, magia perversa, personagens perniciosos, e efusões e erupções corporais repugnantes'. A sra. Bloxam reuniu uma coleção de histórias antigas, inclusive várias de Beedle, e reescreveu-as de acordo com os seus ideais, que, em suas palavras, 'incutiam nas mentes puras dos nossos anjinhos saudáveis pensamentos de felicidade, mantinham o seu doce repouso livre de sonhos maus e protegiam a preciosa flor de sua inocência'. [...]" (p. 16-17)

Mas, afinal, o que a referida sra. Bloxam conseguiu das crianças (certamente mais espertas) foi apenas isto:

"O conto da Sra. Bloxam provocou a mesma reação em gerações de crianças bruxas: incontroláveis ânsias de vômito, seguidas por imediatos pedidos para que alguém levasse o livro [dela] e o transformasse em pasta." (p.18)

Os contos de Beedle, o Bardo, é um livro bastante bem feito que deve agradar mesmo aqueles que ainda não conhecem o mundo de Harry Potter.

Mais alguns dados da obra:

Autora: J. K. Rowling (site oficial http://www.jkrowling.com/)
Ilustrações da autora
Título original: The tales of Beedle the Bard
Tradução: Lia Wyler
Rio de Janeiro, Rocco, 2008, 107 p.
Um percentual da venda dos livros é doado para a Children's High Level Group

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Marcelino Pedregulho - Sempé




Quando peguei o livro do Marcelino pela primeira vez, esperava encontrar os admiráveis desenhos do Sempé, que já conhecia de O Pequeno Nicolau e Monsieur Lambert. Acabei encontrando muito mais: uma estória delicada que fala de sensibilidade e amizades verdadeiras.

Marcelino Pedregulho é um menininho que fica vermelho, ruboriza sim, mas sem saber o porquê. Quando teria de ficar vermelho, não fica. Quando não precisaria ficar assim, aí fica. Pois bem, aos poucos o pequeno Marcelino vai ficando cansado de tanta gente perguntando - por que você está tão vermelho? aconteceu alguma coisa? e vai se afastando de todo mundo. Prefere brincar sozinho. Quem não preferiria?

Mas um dia, quando Marcelino está voltando para casa, escuta alguém espirrando - não um, não dois, nem três - mas muitos, muitos espirros. E é assim que ele conhece um menino que também é diferente - o Renê Rocha. Começam a conversar e daí surge a estória desta grande amizade que vai ter suas complicações, mas também vai conseguir vencer o tempo.

É livro de ler e não esquecer de ver, observar, olhar bem as imagens. Geralmente quem está mais acostumado apenas com os livros de textos acaba passando por cima dos desenhos, dando pouca importância a eles. Neste caso, atenção: as ilustrações, às vezes muito mais que o texto, despertam nossa sensibilidade para as delicadas situações que Marcelino e Renê vivem (observe, por exemplo, as das páginas 13, 20 e 21. Note como as ilustrações das páginas 14 e 15 conversam com as das páginas 40 e 41).

A Cia. Trucks de Teatro de Bonecos fez uma adaptação desta estória que ficou muito especial e pode ser conferida neste link da Revista Crescer. Nesse vídeo, para quem ainda não pegou o livro nas mãos, além de conhecer um pouco mais a estória, vai poder admirar os desenhos do Sempé e a simpatia da Cia. Trucks.

Espero que vocês possam apreciar a leitura deste livro tão especial e aproveito para desejar a todos um Feliz 2011!


Mais alguns dados da obra:

Autor e ilustrador: Jean-Jacques Sempé (1932- )
Título original francês: Marcelin Caillou
Tradução: Mário Sérgio Conti
Edição: Cosac Naify, São Paulo, 2009, 128p., 65 ils.
Publicado originalmente em 1969.


segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Os próprios deuses - Isaac Asimov



"À humanidade e à esperança de
que possamos, um dia, vencer a
guerra contra a insensatez."
Com essa dedicatória tomamos o primeiro contato com esta obra de Asimov.

É daqueles livros que prendem a atenção não só pela capacidade do autor em manter a narrativa interessante, mas também por sua capacidade criativa. O enredo inicia-se com a descoberta de uma nova fonte de energia e a forma como os cientistas ligados à descoberta lidam com isso. Daí em diante, discutem-se as aplicações dessa energia e as implicações e perigos que isso pode ocasionar para o universo e seus habitantes.

Não se trata apenas do planeta Terra. O autor dividiu a narrativa em 3 capítulos que se passam em mundos diferentes (a Terra, o Para-universo e a Lua), intitulados respectivamente: Parte I: Contra a estupidez..., Parte II: ...os próprios deuses..., Parte III: ...lutam em vão?, e manteve bem amarrado o fio condutor que une esses três mundos.

Asimov impressiona não só pelos mundos admiráveis que nos apresenta, mas também como cria os seres que habitam cada um deles e seus comportamentos.

Além disso, a dedicatória acima e os títulos dos capítulos dão o indício de que não se trata apenas de uma história bem contada. A todo momento o texto aponta situações que despertam nosso senso crítico. Até que ponto a nova energia é voltada para o "bem do universo"? Como isso o afeta? E se for realmente boa, como usá-la para não destruir o que existe?

Orgulhos pessoais, interesses econômicos e políticos permeiam a história: as vaidades e mazelas do meio científico e acadêmico, a acidez do meio político, e as complicações das relações interpessoais. Do macro ao microuniverso imaginado e vice-versa, o autor nos faz questionar o que seria sensato ou não.

Para citar um exemplo de como a realidade é cruamente exposta, cito o trecho abaixo - fala de um político da Terra:

"- É um erro supor que as pessoas querem o meio ambiente protegido ou suas vidas salvas, e que se sentirão gratas com qualquer idealista que se disponha a lutar por essas causas - disse o senador. - O que o povo deseja é seu próprio conforto. Sabemos disso muito bem, desde a crise ambiental do século 20. Assim que ficou estabelecido que o tabagismo aumentava a incidência de câncer de pulmão, a solução óbvia era parar de fumar, mas o remédio desejado era um cigarro que não estimulasse o câncer. Quando ficou claro que o motor de combustão interna estava poluindo perigosamente a atmosfera, a solução óbvia era abandonar esses motores, e o remédio foi desenvolver motores não poluentes. Por isso, meu jovem, não me peça para parar o bombeamento. A economia e o conforto do planeta inteiro dependem disso. Em vez dessa solução, diga-me como manter o bombeamento em ação, sem explodir o Sol." (p. 72)
Este livro foi escrito em 1972, mas, como toda boa ficção científica, tem elementos visionários, mantendo-se bastante atual. Gostei bastante e recomendo a leitura!

Para saber um pouco mais sobre o autor:

Mais alguns dados da obra:
Autor: Isaac Asimov (1920-1992)
Título original: The Gods Themselves
Publicação original: 1972
Tradução: Sílvia Mourão
Editora: Aleph. São Paulo, 2010, 367 p.
Obs.: em edições anteriores o título do livro foi traduzido como O Despertar dos Deuses


domingo, 10 de outubro de 2010

Folha - Stephen Michael King




A arte de Stephen Michael King encanta a partir da capa. Uma folha entre os cabelos de um garotinho.

Que estória poderá então sair daí? Livro de imagens com delicadeza de traços e pintura, ideal para a estória singela que brota das páginas.

Com as travessuras e descobertas típicas das crianças, no início, o personagem foge de cortar os cabelos, encontra um cãozinho e um passarinho travesso. Uma folha aparece ali entre os cabelos da criança.

Como cuidar dessa folhinha? E se o cabelo for cortado, o que acontece então? Descobertas, alegrias, apreensões e crescimento, ternura nas imagens desse excelente autor australiano.

Gostei tanto desse livro, que acabei mostrando para todo mundo que encontrava. Crianças, colegas do trabalho, pessoal da família - risos no início e, sem faltar ninguém, todos fizeram um "ahhhhh...." entristecido entre as páginas 48 e 50. Mas, prestando atenção às reações, pude ver em todos os rostos um sorriso leve e alegre ao chegar ao final da estória. Um belo livro!

Para conhecer mais algumas ilustrações e um pouquinho mais sobre o autor, consultem o site dele. Lá há exemplos das ilustrações, você conhece também outros livros do autor.
Gosto em especial da página sobre sua arte.

Além disso, para quem gosta de desenhar, as palavras do autor no vídeo abaixo são inspiradoras. Em uma tradução livre:

"Um professor me disse uma vez
Se você consegue desenhar um círculo
de qualquer tamanho
você pode desenhar qualquer coisa!
Todo mundo pode desenhar!
Se você pode escrever, você pode desenhar
Seja corajoso
Desenhe rápido
Grande
Divirta- se!"




Título original: Leaf
Autor e ilustrador: Stephen Michael King
Tradução: Gilda de Aquino
Tradução das onomatopeias: Paulo Chagas de Souza
Editora: Brinque-book, 1a. edição, São Paulo, 2008, 66p.
Publicado originalmente na Austrália em 2008.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Das preciosidades da grande rede (6) - TED

Lançado em 2007, o interessantíssimo site do TED (Technology, Entertainment, Design) tem por objetivo divulgar "ideias que valem a pena espalhar" ("Ideas Worth Spreading") . E como valem!!

Já o descobri há algum tempo, ali já aprendi e refleti muito sobre os mais variados assuntos.

Pude ouvir palestras com estudiosos importantes como o Oliver Sacks e o Steven Pinker, além de conhecer pessoas que têm muito a acrescentar com suas experiências de vida, como a Temple Grandin. Isto para citar apenas as três pessoas cujos livros venho devorando ultimamente.

Para quem não domina bem o inglês, o site disponibiliza, para algumas palestras, legendas em várias línguas - tendo ali também a nossa querida língua portuguesa (selecionar abaixo de cada vídeo, no item View subtitles).

Como exemplo do entusiasmo gerado por duas palestras inspiradoras, vou anexar aqui a da Chimamanda Adichie, escritora nigeriana que ainda pretendo ler, e que nos fala sobre algo que dá muito o que pensar: o perigo de se ficar preso a apenas uma história :




Outra fonte de reflexão igualmente instigante é a palestra do Chris Abani, também escritor nigeriano, que passou por experiências marcantes e sofridas, e que nos conta sobre "[...] pessoas encarando soldados, pessoas sendo piedosas, pessoas sendo humanas e recuperando sua humanidade. É o 'ubuntu' [...]" (citação do resumo da palestra do site do TED).




Recomendo acessar sempre que puder o site do TED, pois há constantemente palestras novas e pessoas surpreendentes dando seus depoimentos sobre os mais variados temas, que vão desde as neurociências, a biologia, passando pela tecnologia, as artes (literatura, música), até saúde e bem-estar. Uma grande fonte de conhecimento!


sexta-feira, 26 de março de 2010

As penas do dragão - Arnica Esterl / Olga Dugina e Andrej Dugin


Mais uma edição de livro infanto-juvenil magistral - daquelas boas de ficar olhando sempre e de, a cada visão, descobrir coisas novas.

Trata-se de um conto da tradição oral alemã bastante interessante narrado por Arnica Esterl com ilustrações que tornam essa obra muito especial.

O personagem principal é um rapaz que se apaixona por uma moça, mas que deve realizar uma tarefa bastante difícil imposta pelo pai da amada - conseguir três penas de ouro do dragão. Aceito o desafio, o rapaz parte em sua busca, encontrando várias pessoas no caminho que também solicitam seu auxílio. Solidariedade, superação, astúcia e generosidade são conceitos que permeiam a narrativa.

As ilustrações dos russos Olga Dugina e Andrej Dugin não servem apenas para completar o texto, elas o enriquecem de uma maneira inesperada. Quanto mais você olha as imagens, mais se descobrem personagens e cenários intrigantes que parecem contar também uma estória paralela.

Numa atmosfera medieval, povoam as ilustrações seres míticos como unicórnios e estranhos personagens que me lembraram as obras de Bosch. E mais - o que seriam aquelas letras espalhadas aqui e ali? Uma fechadura em uma pedra? E os anões?

Algumas dessas intrigantes referências foram explicadas pelos autores em entrevista disponível no site da Cosac Naify, editora que só merece elogios. Muito bom livro!

Vale também visitar o site dos ilustradores: o Dugin Art.


Mais alguns dados da obra:

Título original: Die Drachenfedern
Autor: Arnica Esterl (1933 -)
Ilustrações: Andrej Dugin e Olga Dugina
Tradução: Tercio Redondo
Editora Cosac Naify, São Paulo, 2010, 30p., 28 ils.

Origem: conto popular alemão coletado por Ignaz e Josef Zingerle (1854)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A Abadia de Northanger - Jane Austen (Northanger Abbey)



Austen. Sempre fonte de prazer estético e boas descobertas.

Quando comprei a Abadia de Northanger, em inglês, não havia conseguido, na época, nenhuma edição traduzida para o português. O livrinho ficou na estante por algum tempo, mas no último dezembro, resolveu se rebelar e dar uma piscadinha marota, lá do meio dos outros.

Pensei... por que não? E, pronto, lá estava eu, avidamente engolindo suas letras. Depois tentei lembrar porque demorei tanto, porque o livro ficou esquecido entre os outros... Como este não era muito comentado, acabei privilegiando a leitura dos mais famosos, como os excelentes Orgulho e Preconceito e Mansfield Park.

Então, a surpresa e a alegria foram grandes quando cheguei ao final da leitura. Pesquisas e mais pesquisas para saber mais sobre ele: primeiro livro escrito por Austen, só foi publicado postumamente em 1818. Apesar de seu direito de publicação ter sido vendido pela autora em 1803, como não havia sido publicado até 1816, ela readquiriu seu manuscrito. Contudo, a obra acabou vindo a público apenas após seu falecimento em 1817.

Para mim esta é, levando em conta que as ironias e comentários se transformaram mais facilmente em riso, a mais bem humorada estória de todas as que li da autora até agora (Orgulho e Preconceito, Mansfield Park e Emma). Por ser o primeiro escrito por Jane, me surpreendeu muito pela visão que ela já tinha das pessoas, de suas relações, de como se movem no meio social.

Desde o começo acompanhamos com interesse Catherine Morland, denominada por Austen, várias vezes, como a heroína de sua estória. Com isso, a autora permitiu-se fazer contrapontos por vezes irônicos, por vezes bastante divertidos, com as personagens de romances góticos, como a de Os mistérios de Udolpho (The mysteries of Udolpho) de Ann Radcliffe (citado na Abadia).

Se tomarmos o início de Os mistérios de Udolpho, por exemplo (do qual li as primeiras 55 páginas), as características da personagem principal, Emily, são, mais ou menos, as seguintes: é filha única de uma família de posses, é bonita e bastante prendada: desenha, pinta, toca e canta maravilhosamente, enquanto Catherine é filha entre muitos irmãos (como a própria Jane Austen foi, inclusive), mora num local retirado, sua família tem posses modestas e foi criada como uma garota comum, sem grandes brilhantismos - características bem mais realistas e que, sem dúvida, nos cativam muito como leitores.

A "aventura" de Catherine começa quando, com 17 anos, ainda muito inexperiente, é convidada pelos Allen, amigos da família, para passar algum tempo com eles em Bath (local que a própria autora visitava em sua época). Lá se verá às voltas com bailes, locais diferentes e com pessoas dos mais diversos tipos que por ali circulam. Fiquei tão envolvida pela leitura, que torcia para que a doce e sonhadora Catherine conseguisse perceber e aprender a lidar com a malícia da realidade à sua volta.

Sorriso e riso tiveram de se manifestar, durante a leitura, em algumas dessas situações. Um exemplo? Quando Catherine, cheia de imaginações sobre a Abadia, lá chega e, em seu quarto, encontra, por ali, uma caixa grande e pesada, um tipo de baú talvez (chest em inglês), misterioso e também quando resolve reparar em uma escrivaninha colocada a um canto. O que aqueles objetos antigos poderiam estar escondendo? Pergaminhos, documentos ocultos, algum segredo, já que a Abadia era bastante antiga?

É lá, como convidada dos Tilney, que ela vai acabar percebendo o quanto imaginação e realidade são diversas. Busca encontrar fatos semelhantes aos que lia em seus romances góticos, seus romances de terror, mas que, na realidade, se apresentam bastante diferentes. Austen acaba satirizando, assim, também os leitores de romances de sua época que acabavam acreditando na ficção como se fosse realidade. Sobre isso, vale ouvir o debate registrado no site da Penguin Books na área denominada Austen-Mania, no espaço reservado para discussões sobre sua obra.

É gostoso acompanhar a mudança dos pensamentos da personagem, seu modo de ver o mundo, até o final da estória, ver como se desenrolarão as suas "aventuras".

Outra grande alegria desta leitura foi, nas pesquisas sobre a obra na web, descobrir vários blogs e sites que tratavam do assunto, mas, principalmente, acabar encontrando a Jasbra (Jane Austen Sociedade do Brasil). O grupo estava, justamente quando cheguei ao final da minha leitura, organizando e realizando discussões sobre a Abadia. Os debates por lá são ótimos e as pessoas são muito, muito especiais. Se você é fã de Jane Austen, como eu, vale conhecer.


Mais alguns dados da obra:
Autora: Jane Austen (1775-1817)
Título original: Northanger Abbey
Editora: Penguin Books - Coleção Penguin Popular Classics
Inglaterra, 1994, 236p.
Obra publicada originalmente em 1818.


Blogs e sites para consulta:
- Jane Austen Sociedade do Brasil - Jasbra
- Jane Austen Portugal
- Austen-mania (Penguin Books)
- Jane Austen (em inglês)
- The Jane Austen Centre (em inglês)
- Livros em inglês disponíveis no Girlebooks

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Estela - Fada da floresta - Marie-Louise Gay


Mais um livro infantil daqueles especiais - gostoso de ver, de pegar, de cheirar, de ler...

Vamos desde o comecinho passeando com o pequeno Marcos e sua irmã Estela de cabelos vermelhos e revoltos. Ah, e não vamos esquecer o simpático cachorrinho que os acompanha o tempo todo.

Podemos ficar pensando, no comecinho da estória, que Estela, a mais velha, vá mostrar tudo, explicando, para o irmãozinho... Mas o bate-papo dos dois é bem mais interessante - é um bate-papo cheio de iluminações, de ambos os lados. Quer um exemplo?


"[...] - Aquilo é uma borboleta, Marcos - explicou Estela.
- As borboletas comem mel? - ele perguntou.
- Só as amarelas - respondeu Estela.
- Então as borboletas azuis comem pedacinhos do céu - concluiu Marcos.
- Como você sabe? - Estela perguntou." (p. 10-11)

Mas só as palavras e apenas uma citação não vão conseguir mostrar toda a graça dessa estória. Essenciais são também as imagens - as singelas ilustrações da canadense Marie-Louise: tudo bastante delicado, simples e bonito. Daquela simplicidade que sabemos ter sido bem planejada, bem gestada. Gostei de tudo, mas em especial das que estão nas páginas 14 e 15, 20 e 21 - que cores, que leveza... que sensação de ser criança de novo. Um passeio de descobertas!

Terminei o livrinho com a sensação de também querer ficar ali na floresta para sempre, mas ao mesmo tempo de sair correndo para comentar o que vi ali e também do que descobri na internet : uma entrevista com a autora na qual ela conta sobre seus personagens, sobre suas estórias e sobre como ela monta as suas ilustrações. Vale muito a pena conferir a própria autora contando sobre o seu trabalho.

Aqui a segunda parte - que trata da produção das obras. A primeira parte da entrevista pode ser conferida no link abaixo:



A primeira parte desta entrevista de Janice Barcellos e Claudia Erthal pode ser vista aqui.

Ah! e uma outra vontade grande - mostrar esse livrinho para a primeira criança que encontrar!

Mais alguns dados da obra:

Título original: Stella, fairy of the forest
Texto e ilustração: Marie-Louise Gay
Tradução: Gilda de Aquino
São Paulo: Brinque-book, 2006, 32p.
Publicação original: Canadá, 2002.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Poe, Poesia e Origami (O Corvo - The raven)




"Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera.
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: 'Nunca mais'."

(O Corvo, Edgar Allan Poe, tradução de Machado de Assis)


Eis um corvo estilizado e simples, em origami, dobrado pensando na leitura de Edgar Allan Poe. A ideia foi lançada pelo Gregorio nos comentários do post sobre os 200 anos de nascimento do escritor e, como gostei bastante da sugestão, saí em busca de um diagrama ou instrução para dobrar a misteriosa ave negra. Escolhi O Corvo para dobrar, porque percebi que, no post anterior, havia comentado apenas os contos de Poe e nada havia falado sobre a poesia.

Para dobrar, usei as instruções que constam em vídeo no site Metacafe, e fiz uma alteração na dobra da cabeça, invertendo o sentido, para criar a sensação de que o corvo está virando o pescoço.

Sobre o famoso poema O Corvo (The Raven), há várias traduções para o português e é muito interessante compará-las para perceber as soluções que cada tradutor encontrou, ora para manter as rimas, ora para manter o suspense do texto. Temos, por exemplo, disponíveis na rede, as traduções de:
- Machado de Assis;
- Fernando Pessoa; e
- Milton Amado.

Outra forma de entrar em contato com o poema é através das várias declamações do texto em inglês. Vale ouvir:
- a memorável interpretação na voz de Vicent Price;
- e também na de Christopher Walken. Em vídeo postado no Youtube, que pode ser visto abaixo, ouve-se Walken e veem-se ilustrações de Gustave Doré.





Aliás, não se pode deixar de conferir a arte de Gustave Doré para The raven que está disponível na rede, no site do Projeto Gutenberg.


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Edgar Allan Poe - 200 anos


Aquarela sobre papel fabriano grana grossa



Edgar Allan Poe nasceu no dia 19 de janeiro de 1809. Duzentos anos se passaram e a vivacidade de seus escritos se mantém. Estou relendo os contos desse autor e sempre fico impressionada com a capacidade de prender nossa atenção e com a maneira como ele conseguia desenvolver as tramas, ao mesmo tempo em que criava narradores tão profundos e inquietantes como o inconstante homem que conta sua estória em O gato preto.

Nesse conto, narrado em primeira pessoa, acompanhamos o desenrolar de fatos que, segundo aquele que conta, o transformaram, afinal nem sempre fora ele um homem desequilibrado, capaz de ações indizíveis... Apesar de negar, a princípio, que queira justificar seus atos ou que alguém o venha a compreender, narra entremeando pensamentos que tentam levar a isso, minimizar os atos cruéis que praticou. É o típico narrador que não permite identificação com o leitor, que nos incomoda, algo como o Raskólnikov de Dostoiévski ou o Brás Cubas do Machado de Assis, guardadas, claro, as devidas diferenças.

"Para a muito estranha embora muito familiar narrativa que estou a escrever, não espero nem solicito crédito. Louco, em verdade, seria eu para esperá-lo, num caso em que meus próprios sentidos rejeitam seu próprio testemunho. Contudo, louco não sou e com toda a certeza não estou sonhando. Mas amanhã morrerei e hoje quero aliviar minha alma. Meu imediato propósito é apresentar ao mundo, plena e sucintamente e sem comentário, uma série de simples acontecimentos domésticos. Pelas suas conseqüências, estes acontecimentos me aterrorizaram, me torturaram e me aniquilaram. [...]" (O Gato Preto, in: Allan Poe - poesia e prosa. Rio de Janeiro: Ediouro, [19??]. p. 245)
Também foi Poe quem inspirou muitos autores de romances policiais. É considerado o criador dos primeiros contos cujas tramas envolvem mistérios que exigem o uso de muito raciocínio e lógica para serem resolvidos e nos quais aparece um minucioso e perspicaz detetive - Auguste Dupin. O personagem aparece em: Os crimes da rua Morgue , O mistério de Marie Rogêt e A carta roubada.

Vários contos de Poe podem ser encontrados na web. Em português, outros contos também igualmente interessantes:
Em inglês, podem ser encontrados no site da Edgar Allan Poe Society.

Um dos meus favoritos, além de O gato preto, é o conto A máscara da morte rubra. Um texto conciso e denso. Poe capricha na descrição para nos situar na abadia fortificada onde o Príncipe Próspero procura escapar da peste. A imagem que nos vem à mente é plasticamente intrigante - cores diferentes dominam cada salão (azul, púrpura, verde, laranja, branco, roxo e o assustador negro); música, agitação e constrangedores silêncios marcam aqueles que se retiraram com o príncipe, quase certos de que ali estariam seguros. A cada vez que leio (e já foram muitas) descubro algo novo - certamente é esta uma das características que faz Poe estar tão vivo hoje quanto há duzentos anos.

O bicentenário de Poe está sendo comemorado pelo mundo e há alguns endereços que vale a pena visitar (além de seu conteúdo, têm uma série de referências para outras fontes sobre o autor):
E também:
No Pós-estranho, um texto muito bom sobre os contos de raciocínio de Poe, dentre outros sobre o escritor.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Fábulas - Liev Tolstói


Esta edição das Fábulas contadas por Tolstói é uma excelente adaptação para o público infanto-juvenil e, como tudo que é feito com cuidado, encanta a todos.

Além de o texto, traduzido diretamente do russo, ser claro, simples e gostoso de ler, as maravilhosas aquarelas do Cárcamo tornam esse pequeno volume indispensável.

Mais uma vez fiz a experiência de ler o livro com uma criança ao meu lado. Minha sobrinha (leitora mirim de 8 anos) e eu brincamos de ler em voz alta, alternando o narrador e os diálogos, comentando sempre as imagens.

O interessante é que ela já tinha lido, na escola, algumas adaptações de fábulas de La Fontaine e conseguiu identificar o gênero e também alguns pontos de contato entre as histórias. As favoritas dela foram O leão e o rato; A cadela e o reflexo (adoramos a cena da água); e O mosquito e o leão.

A minha favorita foi A oliveira e o capim, por tratar singelamente da importância da flexibilidade em nossas vidas; do valor de saber, quando necessário, calar e aguardar. O mais bonito ainda, nessa fábula, é ser contada em apenas duas páginas, belas aquarelas, manchas que a gente olha e olha, flexíveis como a fábula.

Um livro que a gente nunca se cansa de ler e apreciar.


Mais informações sobre a obra:

Autor: Liev Tolstói (1828-1910)
Seleção, adaptação e tradução do russo: Tatiana e Ana Sofia Mariz

Ilustrações: Cárcamo (Se você ainda não o conhece, não deixe de visitar o site e o blog desse excepcional mestre das aquarelas).

Edição: Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2009, 45p.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Das preciosidades da grande rede (2) - Brasiliana USP


Mais uma raridade disponível na grande rede mundial. Trata-se da Brasiliana USP.

Um projeto muito bonito, fruto da parceria de José Mindlin e sua esposa Guita com a Universidade de São Paulo, que está tornando possível o acesso a livros raríssimos. Mindlin e Guita doaram para a USP a biblioteca brasiliana que construíram ao longo da vida.



Para quem ainda não conhecia esse ilustre bibliófilo, ele tem um livro muito, muito interessante publicado pela Companhia das Letras, que já li há algum tempo e que se chama Uma vida entre livros. Nele, Mindlin conta como conseguiu vários de seus livros, fala de sua paixão de leitor e de colecionador. Essa edição conta, ainda, com belas ilustrações.

Saber que há uma equipe empenhada em oferecer uma material de qualidade aos internautas, também nos deixa bastante satisfeitos - um pouco pode ser visto em vídeo da Brasiliana Digital:



Os trabalhos ainda estão no começo, mas fiquei muito feliz ao poder ver as páginas da edição do livro de Hans Staden de 1557, principalmente para conhecer as ilustrações da época. Para quem é ou foi estudante de Letras, para quem é apaixonado por livros, para quem ama a leitura, saber que teremos acesso às raridades pela internet e também poder, quem sabe, ver os originais no prédio que está sendo construído no campus da Cidade Universitária em São Paulo é fascinante.

E alegria maior: saber que muita coisa boa mais ainda está por vir!

segunda-feira, 23 de março de 2009

Os irmãos coração-de-leão - Astrid Lindgren (2 - o livro)



Os Irmãos Coração-de-Leão conta as aventuras do valente Jonas e do frágil Carlinhos. Tudo começa com o pequenino Carlos, adoentado, em sua casinha modesta, onde vive com a mãe, falando com muita admiração do seu irmão mais velho Jonas. Mas esse é um livro cheio de surpresas...
"Vou falar agora sobre o meu irmão. É sobre Jonas Coração-de-Leão, o meu irmão, que quero falar. Acho que o que tenho a contar se parece muito com uma saga e um pouquinho com uma história de almas do outro mundo. No entanto, é a pura verdade, embora Jonas e eu sejamos provavelmente as únicas pessoas do mundo a saber disso." (p. 7)
Pois bem... e a poucas páginas do início, já temos um baque grande... o que terá acontecido a Jonas? Mas é um susto passageiro, porque as aventuras dos irmãos correm além do tempo e do espaço, e vão realmente começar quando eles se reencontrarem em Nangaiala, uma terra com toques medievais onde se pode viver grandes sagas, grandes aventuras.

A delícia do livro está em acompanhar o nosso frágil Carlinhos, em suas duras experiências, que servirão para mostrar-lhe as armadilhas escondidas na falsidade das aparências e dos preconceitos e, ao mesmo tempo, que o farão descobrir o caminho da coragem, da amizade e da ternura. É um caminho árduo, duro, em uma terra que está sendo tiranizada pelo vilão Tengil e pela sombra de Katla. Mais um trechinho instigador:

"- Adeus, meu pequeno - disse Matias. - Não se esqueça do seu avô.
- Eu nunca o esquecerei! - retruquei.
Escorreguei então, sozinho, até a passagem subterrânea, e arrastei-me pelo longo túnel escuro, falando comigo mesmo todo o tempo para não ficar muito assustado.
- Não faz mal que esteja escuro como breu. Não, você não vai ficar sufocado, de modo algum. É verdade que um pouquinho de terra está caindo no seu pescoço, mas isso não significa que o túnel vai desabar, seu bobo! Não, Dodô, o gordo, não vai ver quando você sair do outro lado. Ele não pode ver no escuro, não é? De certo que Jonas está esperando por você. Ele está lá, ouviu? Ele está lá!" (p. 117)

Astrid Lindgren consegue criar uma estória repleta de personagens fascinantes que lutam contra a opressão sem perder a suavidade - é Sofia, frágil e forte, com suas pombas brancas; é Matias, o vovô-amigo que luta e protege os meninos; é Hugo, o arqueiro... Consegue nos encantar com Carlos, um personagem com quem nos identificamos, mesmo que não queiramos (mesmo que desejemos ser sempre Jonas, o bravo). Todos os personagens mudam, mas é Carlos o que passa pelas maiores transformações, evoluindo com suas experiências, conforme as aventuras se sucedem.

Esta é a terceira vez que leio Os irmãos coração-de-leão, e sei que o lerei muitas mais... Assim é a boa literatura para todas as idades, aquela que encanta, que dura no tempo... que nos leva a Nangaiala e ao Vale das Roseiras Silvestres, que por um instante nos faz acreditar em mundos melhores, que nos faz sentir o verdadeiro prazer da leitura.

Nessa edição, que foi garimpada pra trazer lembranças antigas, temos também as graciosas ilustrações de Ilon Wikland, que tanto enriquecem o texto.

Carlinhos chega na estalagem Galo Dourado
Ilustração de Ilon Wikland (p. 36-37)


Para conhecer mais pouco do trabalho dessa ilustradora, um vídeo que faz propaganda de um DVD mostra alguns de seus desenhos. Pena que a narração esteja em sueco e, dessa língua, infelizmente não entendo absolutamente nada... mas é possível apreciar as imagens (essa grande desbravadora das fronteiras linguísticas)!



Para saber mais sobre a excelente escritora que foi Astrid Lindgren, clique aqui (em português) ou aqui para mais informações (website oficial).

Mais alguns dados da obra:

Autora: Astrid Lindgren
Tradução do sueco por: Maria Aparecida Moraes Rego (esta foi considerada uma das 10 melhores traduções de textos infanto-juvenis feitas no Brasil no ano de 1984)
Ilustrações: Ilon Wikland
Título original: Bröderna Lejonhjarta
Editora: Nórdica
Rio de Janeiro, 2a. edição, 1986

Obs.: a aventura da releitura deste lindo livro começou aqui.

Os irmãos coração-de-leão - Astrid Lindgren (1 - o achado)


Sofia e suas pombas brancas
Ilustração de Ilon Wikland
In: Os irmãos coração-de-leão de Astrid Lindgren (p. 40)



Como chegamos a um livro, por que decidimos ler este e não outro naquele momento, quais impressões fluíram durante o ato de ler - estes são alguns pontos que fazem com que algumas leituras também tenham sua história. As releituras, às vezes, duas ou mais delas - a do passado, a do presente.

A história da releitura de Os irmãos coração-de-leão começa, como já aconteceu outras vezes, com um passeio pela livraria. Mais uma vez, na seção de infantis, encontrei uma edição nova do livro agora pela Companhia das Letrinhas. A história lida há muito tempo estalou na memória - um livro lindo - mas daqueles que a gente empresta e que acabam não voltando (ganharam outros rumos...). Em decisão rápida - pronto - comprei a edição nova.

Vontade de começar a ler logo! Mas... fato estranho, a leitura não batia com a leitura da memória, com as emoções do passado, onde estavam as belas ilustrações que havia antes? Por que essa sensação? Fiz mais duas tentativas e a leitura continuava a não fluir... o tradutor era outro (a partir da versão inglesa do texto e não do original sueco), a edição outra, as ilustrações outras. E então a dúvida - será que, lá dentro, uma memória afetiva com o livro do passado ficara gravada?

O jeito foi recorrer aos sebos (nesse caso, a providencial Estante Virtual) e, maravilha, lá estava uma edição antiga a um preço camarada - o livro antes tinha sido editado pela Nórdica e tinha as ilustrações de Ilon Wikland. Comprado, foi só esperar o livrinho chegar pelo correio e, que alegria, tê-lo nas mãos! Agora sim... só o fato de pegá-lo, folheá-lo, já despertou as boas sensações que estavam guardadas em algum lugar.

E que delícia reler as aventuras de Jonas e Carlos Coração-de-Leão!
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