Muitas pessoas leem os livros com ilustrações como se as
imagens não tivessem tanta importância para a história que está sendo contada.
Na escola (pelo menos quando estive por lá, o que já faz um tempinho rs), somos
preparados desde bem pequenos para ler o texto: primeiro as letras, depois as
palavras, as frases, o texto todo e, então, tentar progredir para captar os
significados, deixar a imaginação à solta – é um grande
estudo que leva anos e segue pela vida toda. Mas fico com a impressão de que a mesma
atenção não é dada às artes visuais, às imagens, às ilustrações.
Será que não deveria haver um espaço também para estudos nesse sentido? Por que não discutir as formas, as
cores, as linhas, tentar analisar por que uma imagem tem esta ou aquela composição, por que
esta fotografia foi escolhida para uma matéria de jornal e não aquela, que
carga de significado está por trás disso?
Quando lemos o excelente Contos
de Lugares Distantes, não temos como nos fixar apenas ao texto. O livro foi
concebido para ser lido em conjunto texto + imagem. As imagens não podem ser vistas
sem atenção - se isso for feito, a compreensão do significado ficará prejudicada.
Como consta em texto sobre o autor no final do livro (p. 100), para Shaun Tan:
“As ilustrações são o principal ‘texto’ de seus livros”. Daí que é difícil olhar para as imagens apenas para dizer “que bonito”. Claro, isto também e mais - são lindas as imagens, intrigantes, mas é preciso atentar para o fato de que elas estão lá como parte da tessitura, entranhadas no
que se quer contar.
Nestes tempos de
pressa, de ansiedade, de correria, os contos do Shaun Tan me fazem
desacelerar, ler com calma, vendo com atenção, degustando, como se aprecia um
bom vinho (ou uma boa cerveja gelada, se estiver um calor absurdo como o que anda fazendo
este verão).
São vários contos com diferentes concepções que tratam de eventos que, se acontecessem, tornariam o nosso dia menos óbvio ou, ao menos, nos fariam parar para refletir.
Em Eric, um dos meus contos preferidos, por exemplo, depois do título aparece uma ilustração com o Eric e, na sequência, o texto começa assim:
"alguns anos atrás, um estudante de intercâmbio veio morar conosco. Achávamos muito difícil pronunciar seu nome corretamente, mas ele não se importava. Dizia para chamá-lo simplesmente de 'Eric'.” (p.8).
As imagens carregam sentido, causando um estranhamento - o Eric é realmente diferente do que poderíamos esperar de um estudante de intercâmbio. O conto me fez pensar sobre o convívio com o estrangeiro (com o estranho): o quanto realmente sabemos do outro, como vemos o diferente, como lidamos com ele. E daquela sensação que fica de que, talvez, pudéssemos ter feito melhor - sensação reforçada pela delicada imagem que encerra o texto.
Em outro conto, Chuva ao longe, o texto está dentro das imagens, nos pequenos fragmentos recortados. Nos pedaços de poemas que alguém sempre se arriscou a escrever, mas que ficou esquecido, perdido, escondido, por aí. O interessante é acompanhar o conto para saber o que pode acontecer com esses poemas.
Em História do Vovô, as imagens carregam metáforas sobre o ritual (?!) que precedeu o casamento do avô e que ele está contando para os netos - do que ele precisou passar para chegar à união. Nesse conto, além das imagens-metáforas de cada estágio pelo qual o casal teve de passar, as cores também têm um papel fundamental.
Parar para observar cada imagem prestando
atenção à arte é um dos pontos altos da leitura - o Shaun Tan mistura (e domina) várias técnicas em suas
ilustrações – tem acrílica, guache, grafite, óleo; tudo com traço e estilo marcantes.
Por isso, gosto tanto deste livro e recomendo a leitura. Porque ele nos causa estranhamento, tem um quê de surreal que desperta a
imaginação e muitas reflexões. Da primeira vez, acabei de ler os contos com um sorriso e
um baita ponto de interrogação. Será que entendi tudo que estava lá? E o bom foi
descobrir que não! Ótimo - assim posso voltar ao livro (esta já é a terceira vez),
sempre descobrindo mais alguma coisa que não tinha visto antes. E não é isso mesmo que devem fazer as grandes obras?
Quarta capa do livro, na excelente edição da Cosac Naify,
com texto do Neil Gaiman (muito bom!)
Tradução: Érico Assis (O Érico também comentou sobre este livro no Blog da CosacNaify)
São Paulo: Cosac Naify, 2012, 104p., 49 ils.
P.S.: às vezes, o livro também aparece classificado como “história em quadrinhos”. Estranho... Não me parece que esta seja uma
boa classificação, mas também acho que o livro não se enquadraria muito bem em
nenhuma outra. Contos, como diz o próprio título, talvez..., um livro
de instantâneos de vida.
P.S.2: Um pouco mais sobre o Shaun Tan. The Evolution of an Idea (em 3 partes, com Neil Gaiman e Eddie Campbell). Aqui a primeira parte:
Quando Sofia ficou acordada de noite, em um horário meio perigoso para se estar acordado, bem de madrugada, na chamada hora das bruxas, acabou se deparando com algo que nem ela, nem nós, imaginávamos: o BGA, uma sombra estranha, gigante, que espiava pela janela das casas.
O que era o BGA, ela fica sabendo logo depois - o Bom Gigante Amigo, que tem uma maneira muito peculiar e divertida de falar, mas mora num lugar perigosíssimo cheio de outros gigantes comedores de "serumanos". Além disso, o BGA tem umas ideias que mexem com a cabeça da Sofia:
"(...) Gigante não dorme muito, só assim de quando em vez. Não é feito os serumanos, que adora tanto dormir. Você já prestou atenção que um serumano de cinquenta anos passou menos ou mais vinte anos dormindo pesado?
- Confesso que nunca tinha pensado nisso - disse Sofia.
- Não precisa confessar, só pense, por favor - disse o BGA. - Pense assim. Esse serumano de cinquenta anos que nós tá falando dele, de verdade ele passou vinte anos dormindo sem nem saber aonde! Sem fazer nada! Sem nem pensar em nada!
- É uma ideia engraçada." (O BGA, 2009, p. 117)
Outra característica muito bacana do BGA é que ele sabe como encontrar os sonhos e capturá-los, para depois soprar nas janelas das crianças, para que tenham sonhos bem legais.
A grande aventura do livro começa quando Sofia e o BGA resolvem fazer alguma coisa para se livrar dos outros gigantes que comem gente. E até a rainha da Inglaterra vai entrar na história!
É um livro divertidíssimo e gostoso de ler, escrito por um autor muito especial, o Roald Dahl, que é também autor de Matilda e James e o Pêssego Gigante, que acabaram virando filmes.
Um destaque para a tradução da Angela Mariani que conseguiu manter a graça do original, criando palavras que ficaram muito interessantes e engraçadas em português. Outro detalhe desta edição: as ilustrações do Quentin Blake - que podem ser vistas no site do autor: http://www.quentinblake.com/gallery/illustrations
Ou seja, se você ainda não leu nada do Roald Dahl (como eu ainda não tinha lido), experimente. É daqueles autores que a gente acaba um livro e já sai correndo atrás de outros títulos. Já estou de olho em um que está nas livrarias e se chama: As bruxas. Bom... tem também A fantástica fábrica de chocolate e Matilda que só conheço dos filmes. Como é bom quando a gente encontra um autor que dá vontade de ler a obra inteira!
Mais alguns dados da obra:
Título original: The BFG
Autor: Roald Dahl (1916-1990)
Tradução: Angela Mariani
Ilustrador: Quentin Blake
São Paulo, Editora 34, 2009, 2a. ed., 288p.
Atualizando (03/01/2014): Existe também uma animação, de 1989: The BFG (em inglês) - trailer no youtube:
Está em cartaz até o dia 17/02, no Instituto Tomie Ohtake, a Exposição "Bruno Munari - Arte, Desenho, Design" e traz trabalhos interessantes deste artista que se aventurou por vários materiais e técnicas.
A exposição está bem montada e num espaço bastante bonito do Instituto, local que ainda não conhecia e para onde pretendo voltar várias vezes.
Gostei bastante de ver algumas anotações do próprio Munari sobre o seu trabalho e, principalmente, de conhecer esse seu lado multifacetado. Conhecia mais sua obra ligada ao livro, mais especificamente ao livro infantil. Nessa linha, a exposição traz alguns jogos criados por ele e também peças da série Livro Ilegível. A única pena é não poder brincar com aqueles jogos (principalmente o de transparências) e não poder folhear os livros ilegíveis :D.
Também são muito interessantes as peças apresentadas - móbiles, luminárias. Tornaram-se favoritas as peças Ora X (1963), "Macchina Inutile 'Max Bill" e "Concavo-Convexo". Quanto a esta última em particular é interessante observar também as sombras que ela cria na parede oposta.
Para quem gosta de artes e, mais especificamente da área de design, é uma exposição que vale a pena.
Mais alguns dados:
Exposição Bruno Munari: Arte, Desenho, Design
Curadoria: Luis Pérez-Oramas
Local: Instituto Tomie Ohtake
até 17/02/2013, de terça a domingo das 11h às 20h, entrada gratuita
(fechado no feriado do Carnaval)
Mais informações no site do Instituto
O Rei de Quase-Tudo sempre queria mais. Não se contentava com nada do que tinha - queria acumular, aprisionar, guardar... Mas, até onde se pode realmente "ter" tudo? Precisamos "ter" tanto?
Estas questões, com sua profundidade própria, são tratadas de forma primorosa pelo autor, Eliardo França. Seu texto e suas belas ilustrações podem parecer simples à primeira vista - contudo, é justamente nessa simplicidade e leveza que moram a sua força e capacidade instigadora.
A arte das imagens, suas cores, trabalham em conjunto com o texto para dar o clima da narrativa (dá para ver um exemplo de ilustração no site do autor, clicando aqui). Gosto em especial da imagem de página inteira que mostra o Rei de Quase-Tudo triste, quando ele começa a perceber que, tendo aprisionado tudo, não tinha realmente nada.
Este livro foi lançado em uma época conturbada da nossa história, em 1974, época do governo militar. E tratar dessa relação de posse e poder ditatorial, trazendo a temática para o público infantil, foi extremamente importante - o foi na época e continua sendo até hoje, pois vai além e nos permite pensar na posse, no "ter" em vários outros sentidos também. É como um farol aceso que aponta o que pode limitar nossa capacidade de usufruir a vida e de sermos livres.
Muito premiada (recebeu menção honrosa na Bienal de Ilustrações de Bratislava, em 1975; o primeiro lugar como "Livro para um Mundo Melhor" da Unesco, em 1979; entre outros), esta obra, sem dúvida, merece todas as honrarias que recebeu.
Demorei para conhecê-la - só agora tive a oportunidade de lê-la - e posso garantir: continua tão viva hoje quanto na época em que foi lançada. É daqueles livros aos quais gostamos de voltar sempre, por isso, como sempre gosto de reforçar aqui: é uma obra muito recomendável não só para o público infantojuvenil, pois sua arte e texto são muito acessíveis aos pequenos, mas também é excelente para o público adulto!
Mais alguns dados da obra:
Primeira publicação: 1974
Autor: Eliardo França (MG, 1941 - )
Ilustrações do próprio autor
Editora: Global
São Paulo, 15a. edição, 2011
Trechinho de entrevista com o autor pelo Museu da Pessoa no youtube.
Faz um tempinho que estou estudando uma ilustração para ser colocada como banner de um blog da internet.
Tinha que ser uma aquarelinha especial, porque é para uma pessoa muito, muito querida!
Ficou pronto hoje, depois de, pelo menos (rs), umas 8 tentativas. É muito interessante como, quando temos um objetivo, aprendemos muito mais. Tive que estudar vários temas, como luz e sombra, composição etc. etc. e... acabei descobrindo duas coisas - ainda preciso estudar muito mais e também comprar um scaner decente!
Depois da aquarela, mexi um pouco no brilho e nos níveis, inclui o título do blog e a nome dessa pessoa tão querida, usando photoshop.
Se quiserem ver como ficou, na prática, é só visitar o excelente Mania de Artesanato.
Píppi Meialonga é uma menina diferente e, principalmente, independente, cheia de atitudes e ideias que costumam chacoalhar alguns pensamentos não muito acostumados a sair do lugar.
Para alguns, ela pode até assustar à primeira vista - mas quem não fica um pouco intrigado com o que vê pela primeira vez? Afinal, Píppi é uma criança, mas veio morar sozinha na Vila Vilekula, tem um macaco como companheiro permanente, o Sr. Nilson, e um cavalo que mora na sua varanda, além de ser uma garota muito, mas muito forte mesmo.
Essa famosa personagem da literatura infantil mundial, criada pela Astrid Lindgren lá nos idos de 1945, continua (e como continua) extremamente atual e instigante. Por quê? Principalmente pelo inusitado, pelo bom humor e por questionar lugares comuns meio bolorentos. É o que acontece, por exemplo, quando os policiais são chamados para tentar levar a garota para um lar de crianças:
"[...] Depois acrescentaram que algumas pessoas bondosas da cidade estavam tomando providências para conseguir uma vaga para ela num lar de crianças.
- Já tenho minha vaga num lar de crianças - disse Píppi.
- Como assim? A questão já foi resolvida? - perguntou um dos policiais. - Onde fica esse lar de crianças?
- Bem aqui! - disse Píppi, orgulhosa. - Eu sou uma criança, e este é meu lar, portanto este é um lar de criança. E aqui tem vaga de sobra pra mim. [...]
- É, mas você não entende que tem de ir à escola? - insistiu o policial.
- E por que tenho de ir à escola?
- Para aprender as coisas, óbvio!
- Que tipo de coisas?
- Todos os tipos de coisas - disse o policial -, um montão de coisas úteis. A tabuada, por exemplo.
- Faz nove anos que vivo muito bem sem tamburada - disse Píppi - E não vejo nenhuma razão para não continuar assim. [...]" (p.38-39)
E mais adiante, quando o policial pergunta se ela não vai ficar com vergonha se alguém lhe perguntar qual é a capital de Portugal e ela não souber responder:
" - É, mas você não acha que ia ficar chateada por não saber?
- Pode até ser - disse Píppi - Com certeza eu ia ficar noites e noites acordada pensando: 'Como é mesmo que se chama a capital de Portugal?'. Mas a pessoa não pode passar o tempo todo se divertindo - disse, e para variar um pouco trocou de posição e começou a se equilibrar nas mãos em vez de ficar em pé. - Aliás, já estive em Lisboa com meu pai - continuou, ainda de cabeça para baixo, pois também conseguia falar nessa posição." (p. 39)
Conheci os livros da Píppi faz pouco tempo e um dos aspectos que me agradou foi que, na maior parte do tempo, as perguntas por quê? como? isso poderia ser diferente? foram encaminhando o pensamento durante a leitura.
Em sua narrativa fluente, cheia de encanto e alegria, Astrid nos faz acompanhar as várias aventuras de Píppi, e seus amigos Tom e Aninha que acabam aprendendo com ela a brincar de verdade. A personagem acaba mostrando a outras crianças um forte senso de justiça e, aos adultos, que não são sempre eles que sabem tudo - todos precisam suspeitar de suas certezas. Além disso, Píppi é uma figurinha muito simpática e bastante aberta a questionar a si mesma:
" - De onde você tirou que eu nunca estive no Egito? Pois estive! Fique sabendo que eu já estive em todos os lugares do mundo e já vi muitas coisas bem mais estranhas do que pessoas andando de costas [...]
- É tudo mentira sua - disse Tom.
Píppi pensou um pouco.
- É você tem razão. É mentira - disse ela, chateada.
- É feio mentir - disse Aninha, que finalmente tinha criado coragem de abrir a boca.
- É mesmo, é muito feito mentir - disse Píppi, ainda mais triste. - Mas de vez em quando eu esqueço, entende? E você acha mesmo que uma menina que tem uma mãe que é um anjo e um pai que é rei dos canibais, uma menina que passou a vida inteira navegando mar afora, tem de ficar o tempo todo dizendo a verdade? E aliás... - [...]" (p.15-16)
Um destaque da edição da Companhia das Letrinhas são as ilustrações do Michael Chesworth, ilustrador americano também responsável pelas imagens de Píppi nos Mares do Sul e Píppi a Bordo. As imagens são tão divertidas e instigantes quanto o texto.
Mas o principal - este livro nos proporciona um grande prazer - é muito divertido viajar pelo mundo da Píppi Meialonga!
Mais alguns dados da obra:
Autora: Astrid Lindgren (1907-2002)
Título original: Pippi Långstrump (1945)
Tradução do sueco por: Maria de Macedo
Ilustrações: Michael Chesworth (site - http://www.crashbangboom.com/)
Edição: Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2001, 156 p.
E mais algumas informações sobre a Píppi e sua criadora:
- Uma entrevista com a Astrid Lindgren (em inglês) está disponível no site Astrid Lindgren´s World;
- As peripécias da menina de tranças esticadas ganharam uma série para a TV em 1969 e adaptações para o teatro;
- A autora tem por volta de 80 livros publicados traduzidos para diversas línguas;
- No Brasil, além de Píppi Meialonga, foram traduzidos: Píppi a Bordo e Píppi nos Mares do Sul.
- Aqui no blog já comentamos também sobre Os irmãos coração de leão.
Tentar reproduzir a obra de grandes pintores e ilustradores é uma das boas formas de se aprender. Desde a primeira vez que assisti ao filme Miss Potter (devidamente revisto hoje), a aquarela do natal dos coelhos ficou marcada na minha memória. Também ficou marcada como uma ideia, quem sabe, de tentar pintar os seus lindos coelhos. Mas sempre, na hora de tentar, um friozinho na barriga fazia com que deixasse para depois.
Agora a coragem veio - o resultado está aí. Aprendi muito nessa tentativa, sobre luz, sombra, e descobri que ainda preciso aprender a dar o efeito de pelo que ela conseguia nas suas ilustrações. Para ver algumas das encantadoras ilustrações da Beatrix, dá um pulo ali no excelente blog Bibliodissey.
Estão disponíveis na rede, para visualização, as edições completas da ótima revista americana Illustration.
A revista nasceu em outubro de 2001 (ver editorial do Dan Zimmer no volume 9, n. 34, de 2011) e dedica-se à história da ilustração americana. Recheada de informações e imagens, nos proporciona uma verdadeira "degustação" visual, além de nos dar a oportunidade de conhecer vários artistas.
Particularmente, gostei também das duas edições que tratam de ilustradores contemporâneos que estão na Illustration '05. Uma delas tem matéria com um dos meus ilustradores favoritos - o Peter de Sève.
Esta foi mais uma boa dica que apareceu no fórum de ilustradores do Yahoo - o Ilustragrupo, indicada pelo Ricardo Antunes.
"Uma crônica divertida das atribulações do Fantasma de Canterville quando seus salões ancestrais se tornaram o lar do embaixador americano junto à Corte de Saint James." (O.Wilde)
A estória começa com uma família tipicamente americana (os Otis) que, na Inglaterra, resolvem adquirir a propriedade onde habita um célebre e terrível fantasma, a despeito dos avisos de seu proprietário, Lorde Canterville, e do medo expressado pelos criados da casa.
Com um ceticismo característico, a nova família questiona a presença do fantasma. Contudo, em determinado momento, a existência da entidade não pode mais ser negada, o que, entretanto, não intimida os novos moradores - os filhos gêmeos, por exemplo, não hesitam em pregar várias peças no espírito, e o mais velho, Washington, recorre a vários recursos para tentar desbaratar as ações sobrenaturais.
É bastante interessante como o escritor vai apontando os sentimentos do fantasma ao se ver tão desprezado, ao mesmo tempo em que vai se lembrando como sempre fora tão temido. O que estaria mudando? Nesse ponto, a narrativa que vinha sendo feita em terceira pessoa, dá voz ao fantasma, passando à primeira pessoa.
O único membro da família que parece se sensibilizar com a, agora, triste figura é a delicada Virgínia, que terá papel importante na redenção do fantasma, mas isto só poderá ocorrer se uma velha profecia se concretizar... afinal ele havia cometido um crime horrível.
Mais do que uma simples estória de fantasmas, nessa narrativa, Wilde brinca com contrastes existentes entre as culturas inglesa e americana. Ironiza em vários momentos o tradicionalismo inglês e as "modernidades" e o racionalismo americanos, como quando os novos habitantes recebem da governanta da casa explicações sobre uma mancha de sangue no assoalho que teria origem sobrenatural:
"A velha mulher sorriu e respondeu com a mesma voz baixa, misteriosa: 'É o sangue de Lady Eleanore de Canterville, que foi assassinada exatamente naquele lugar pelo marido, Sir Simon de Canterville, em 1575. Sir Simon sobreviveu a ela nove anos e desapareceu de repente, em circunstâncias muito misteriosas. Seu corpo nunca foi encontrado, mas seu espírito culpado ainda assombra a Quinta. A mancha de sangue foi muito admirada por turistas e visitantes e não pode ser removida'.
'Isso tudo é um disparate', exclamou Washington Otis. 'O Campeão dos Tira-Manchas Pinkerton e o detergente Paragon vão removê-la num instante.' E, antes que a apavorada governanta pudesse interferir, ele se ajoelhou e esfregou o chão rapidamente [...]" (p.14-15)
Bastante irônico e até cômico ao início (não há como conter o riso em algumas passagens), aos poucos o livro vai ganhando um toque mais sensível e culmina com uma mensagem bem mais profunda, ao final, sobre o tema vida e morte ... Diz Virgínia:
"Não me peça tal coisa, Cecil, não posso dizer-lhe nada. Pobre Sir Simon! Devo muito a ele. É isso mesmo, não ria, Cecil. Mostrou-me o que é a Vida, o que significa a Morte e por que razão o Amor é mais forte do que a Vida e a Morte." (p.60)
Ilustração de Lisbeth Zwerger (p. 35)
Este foi mais um clássico que valeu a pena conhecer e cuja leitura se tornou ainda mais agradável na indispensável edição da Berlendis & Vertecchia, pelas delicadas ilustrações da premiada artista Lisbeth Zwerger. As imagens completam o texto com um toque bastante especial. Outras aquarelas da artista podem ser vistas no blog Entre lápis e pincéis.
Mais alguns dados da obra:
Texto integral
Autor: Oscar Wilde (1854-1900 - Irlanda)
Título Original: The Canterville Ghost
Tradução e Notas de: Renata Lucia Bottini
Ilustradora: Lisbeth Zwerger (1954 - Áustria)
Editora Berlendis & Vertecchia, São Paulo, 2009, Coleção Os meus clássicos, 63 p.
de que, a cada passo, uma folhinha da árvore vermelha
estará ali, esperando...
esperando pronta para brotar.
Esta obra é livro de deixar-se levar,
de parar para admirar as maravilhosas ilustrações de Shaun Tan...
Por isso, uma importante dica de leitura:
nele imagens e textos se mesclam,
se misturam
se completam, então:
pegue o livro nas mãos,
respire fundo, bem fundo, relaxe
e demore bastante em cada página... observando cada detalhe.
"Quem já não acordou algum dia
com a certeza de que tudo vai mal
e não há nada a fazer?
Quem já não se sentiu
como um peixe fora d'água
em um mundo pra lá de estranho?"
(texto da contracapa do livro A árvore vermelha de Shaun Tan, acima)
Shaun Tan é um artista australiano merecidamente premiado por suas belas criações, com toques surreais. Para saber um pouco mais sobre ele, visite o site (em inglês): http://www.shauntan.net/news1.html
Quando peguei o livro do Marcelino pela primeira vez, esperava encontrar os admiráveis desenhos do Sempé, que já conhecia de O Pequeno Nicolau e Monsieur Lambert. Acabei encontrando muito mais: uma estória delicada que fala de sensibilidade e amizades verdadeiras.
Marcelino Pedregulho é um menininho que fica vermelho, ruboriza sim, mas sem saber o porquê. Quando teria de ficar vermelho, não fica. Quando não precisaria ficar assim, aí fica. Pois bem, aos poucos o pequeno Marcelino vai ficando cansado de tanta gente perguntando - por que você está tão vermelho? aconteceu alguma coisa? e vai se afastando de todo mundo. Prefere brincar sozinho. Quem não preferiria?
Mas um dia, quando Marcelino está voltando para casa, escuta alguém espirrando - não um, não dois, nem três - mas muitos, muitos espirros. E é assim que ele conhece um menino que também é diferente - o Renê Rocha. Começam a conversar e daí surge a estória desta grande amizade que vai ter suas complicações, mas também vai conseguir vencer o tempo.
É livro de ler e não esquecer de ver, observar, olhar bem as imagens. Geralmente quem está mais acostumado apenas com os livros de textos acaba passando por cima dos desenhos, dando pouca importância a eles. Neste caso, atenção: as ilustrações, às vezes muito mais que o texto, despertam nossa sensibilidade para as delicadas situações que Marcelino e Renê vivem (observe, por exemplo, as das páginas 13, 20 e 21. Note como as ilustrações das páginas 14 e 15 conversam com as das páginas 40 e 41).
A Cia. Trucks de Teatro de Bonecos fez uma adaptação desta estória que ficou muito especial e pode ser conferida neste link da Revista Crescer. Nesse vídeo, para quem ainda não pegou o livro nas mãos, além de conhecer um pouco mais a estória, vai poder admirar os desenhos do Sempé e a simpatia da Cia. Trucks.
Espero que vocês possam apreciar a leitura deste livro tão especial e aproveito para desejar a todos um Feliz 2011!
A arte de Stephen Michael King encanta a partir da capa. Uma folha entre os cabelos de um garotinho.
Que estória poderá então sair daí? Livro de imagens com delicadeza de traços e pintura, ideal para a estória singela que brota das páginas.
Com as travessuras e descobertas típicas das crianças, no início, o personagem foge de cortar os cabelos, encontra um cãozinho e um passarinho travesso. Uma folha aparece ali entre os cabelos da criança.
Como cuidar dessa folhinha? E se o cabelo for cortado, o que acontece então? Descobertas, alegrias, apreensões e crescimento, ternura nas imagens desse excelente autor australiano.
Gostei tanto desse livro, que acabei mostrando para todo mundo que encontrava. Crianças, colegas do trabalho, pessoal da família - risos no início e, sem faltar ninguém, todos fizeram um "ahhhhh...." entristecido entre as páginas 48 e 50. Mas, prestando atenção às reações, pude ver em todos os rostos um sorriso leve e alegre ao chegar ao final da estória. Um belo livro!
Para conhecer mais algumas ilustrações e um pouquinho mais sobre o autor, consultem o site dele. Lá há exemplos das ilustrações, você conhece também outros livros do autor. Gosto em especial da página sobre sua arte.
Além disso, para quem gosta de desenhar, as palavras do autor no vídeo abaixo são inspiradoras. Em uma tradução livre:
"Um professor me disse uma vez Se você consegue desenhar um círculo de qualquer tamanho você pode desenhar qualquer coisa! Todo mundo pode desenhar! Se você pode escrever, você pode desenhar Seja corajoso Desenhe rápido Grande Divirta- se!"
Título original: Leaf Autor e ilustrador: Stephen Michael King Tradução: Gilda de Aquino Tradução das onomatopeias: Paulo Chagas de Souza Editora: Brinque-book, 1a. edição, São Paulo, 2008, 66p. Publicado originalmente na Austrália em 2008.
Mais uma edição de livro infanto-juvenil magistral - daquelas boas de ficar olhando sempre e de, a cada visão, descobrir coisas novas.
Trata-se de um conto da tradição oral alemã bastante interessante narrado por Arnica Esterl com ilustrações que tornam essa obra muito especial.
O personagem principal é um rapaz que se apaixona por uma moça, mas que deve realizar uma tarefa bastante difícil imposta pelo pai da amada - conseguir três penas de ouro do dragão. Aceito o desafio, o rapaz parte em sua busca, encontrando várias pessoas no caminho que também solicitam seu auxílio. Solidariedade, superação, astúcia e generosidade são conceitos que permeiam a narrativa.
As ilustrações dos russos Olga Dugina e Andrej Dugin não servem apenas para completar o texto, elas o enriquecem de uma maneira inesperada. Quanto mais você olha as imagens, mais se descobrem personagens e cenários intrigantes que parecem contar também uma estória paralela.
Numa atmosfera medieval, povoam as ilustrações seres míticos como unicórnios e estranhos personagens que me lembraram as obras de Bosch. E mais - o que seriam aquelas letras espalhadas aqui e ali? Uma fechadura em uma pedra? E os anões?
Algumas dessas intrigantes referências foram explicadas pelos autores em entrevista disponível no site da Cosac Naify, editora que só merece elogios. Muito bom livro!
Vale também visitar o site dos ilustradores: o Dugin Art.
Mais alguns dados da obra:
Título original: Die Drachenfedern Autor: Arnica Esterl (1933 -) Ilustrações: Andrej Dugin e Olga Dugina Tradução: Tercio Redondo Editora Cosac Naify, São Paulo, 2010, 30p., 28 ils.
Origem: conto popular alemão coletado por Ignaz e Josef Zingerle (1854)
Mais um livro infantil daqueles especiais - gostoso de ver, de pegar, de cheirar, de ler...
Vamos desde o comecinho passeando com o pequeno Marcos e sua irmã Estela de cabelos vermelhos e revoltos. Ah, e não vamos esquecer o simpático cachorrinho que os acompanha o tempo todo.
Podemos ficar pensando, no comecinho da estória, que Estela, a mais velha, vá mostrar tudo, explicando, para o irmãozinho... Mas o bate-papo dos dois é bem mais interessante - é um bate-papo cheio de iluminações, de ambos os lados. Quer um exemplo?
"[...] - Aquilo é uma borboleta, Marcos - explicou Estela. - As borboletas comem mel? - ele perguntou. - Só as amarelas - respondeu Estela. - Então as borboletas azuis comem pedacinhos do céu - concluiu Marcos. - Como você sabe? - Estela perguntou." (p. 10-11)
Mas só as palavras e apenas uma citação não vão conseguir mostrar toda a graça dessa estória. Essenciais são também as imagens - as singelas ilustrações da canadense Marie-Louise: tudo bastante delicado, simples e bonito. Daquela simplicidade que sabemos ter sido bem planejada, bem gestada. Gostei de tudo, mas em especial das que estão nas páginas 14 e 15, 20 e 21 - que cores, que leveza... que sensação de ser criança de novo. Um passeio de descobertas!
Terminei o livrinho com a sensação de também querer ficar ali na floresta para sempre, mas ao mesmo tempo de sair correndo para comentar o que vi ali e também do que descobri na internet : uma entrevista com a autora na qual ela conta sobre seus personagens, sobre suas estórias e sobre como ela monta as suas ilustrações. Vale muito a pena conferir a própria autora contando sobre o seu trabalho.
Aqui a segunda parte - que trata da produção das obras. A primeira parte da entrevista pode ser conferida no link abaixo:
A primeira parte desta entrevista de Janice Barcellos e Claudia Erthal pode ser vista aqui.
Ah! e uma outra vontade grande - mostrar esse livrinho para a primeira criança que encontrar!
Mais alguns dados da obra:
Título original: Stella, fairy of the forest Texto e ilustração: Marie-Louise Gay Tradução: Gilda de Aquino São Paulo: Brinque-book, 2006, 32p. Publicação original: Canadá, 2002.
Há algum tempo (diga-se desde o primeiro número), acompanho esta excelente Revista brasileira sobre ilustração editada pelo Ricardo Antunes.
Todas as edições podem ser baixadas gratuitamente no site da Revista Ilustrar. É uma preciosidade que precisa ser conhecida e divulgada. Posso dizer que já aprendi bastante e conheci muitos trabalhos instigantes e inspiradores através dela.
Dos números anteriores, para aguçar a curiosidade, destaco algumas matérias que me agradaram muito:
- na Revista 7 - na seção Internacional, há uma entrevista com o grande ilustrador argentino Carlos Nine. Lá ficamos sabendo um pouco sobre o processo criativo do artista e podemos ver algumas de suas lindas ilustrações. Nessa mesma edição, há também uma matéria sobre o Eugênio Colonnese, entre outras.
- na Revista 9 - na seção Memória, matéria e imagens de dar água nos olhos com o artista japonês Massao Okinaka, mestre na técnica do sumi-ê. Outra seção da revista que é muito boa é a Step-by-Step, na qual um artista é convidado para mostrar um pouco da sua técnica, dar uma aula rápida sobre algum tema. Na edição 9, a seção ficou a cargo do Hiro.
Nesse último número, edição 12, estrearam as colunas Nacional e Internacional, nas quais são convidados ilustradores para darem opiniões, destacarem ideias e conceitos. Na seção Nacional, o Renato Alarcão apresenta um ótimo texto sobre o Japonismo, a influência da arte japonesa nas artes ocidentais.
Ainda não conhece a revista? Ficou curioso? Então é só dar um pulinho ali no site da Revista Ilustrar!
"Segunda vez, nesse momento, Sorriu-me o triste pensamento; Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo; E mergulhando no veludo Da poltrona que eu mesmo ali trouxera Achar procuro a lúgubre quimera. A alma, o sentido, o pávido segredo Daquelas sílabas fatais, Entender o que quis dizer a ave do medo Grasnando a frase: 'Nunca mais'."
(O Corvo, Edgar Allan Poe, tradução de Machado de Assis)
Eis um corvo estilizado e simples, em origami, dobrado pensando na leitura de Edgar Allan Poe. A ideia foi lançada pelo Gregorio nos comentários do post sobre os 200 anos de nascimento do escritor e, como gostei bastante da sugestão, saí em busca de um diagrama ou instrução para dobrar a misteriosa ave negra. Escolhi O Corvo para dobrar, porque percebi que, no post anterior, havia comentado apenas os contos de Poe e nada havia falado sobre a poesia.
Para dobrar, usei as instruções que constam em vídeo no site Metacafe, e fiz uma alteração na dobra da cabeça, invertendo o sentido, para criar a sensação de que o corvo está virando o pescoço.
Sobre o famoso poema O Corvo (The Raven), há várias traduções para o português e é muito interessante compará-las para perceber as soluções que cada tradutor encontrou, ora para manter as rimas, ora para manter o suspense do texto. Temos, por exemplo, disponíveis na rede, as traduções de: - Machado de Assis; - Fernando Pessoa; e - Milton Amado.
Outra forma de entrar em contato com o poema é através das várias declamações do texto em inglês. Vale ouvir: - a memorável interpretação na voz de Vicent Price; - e também na de Christopher Walken. Em vídeo postado no Youtube, que pode ser visto abaixo, ouve-se Walken e veem-se ilustrações de Gustave Doré.
Aliás, não se pode deixar de conferir a arte de Gustave Doré para The raven que está disponível na rede, no site do Projeto Gutenberg.
Esta edição das Fábulas contadas por Tolstói é uma excelente adaptação para o público infanto-juvenil e, como tudo que é feito com cuidado, encanta a todos.
Além de o texto, traduzido diretamente do russo, ser claro, simples e gostoso de ler, as maravilhosas aquarelas do Cárcamo tornam esse pequeno volume indispensável.
Mais uma vez fiz a experiência de ler o livro com uma criança ao meu lado. Minha sobrinha (leitora mirim de 8 anos) e eu brincamos de ler em voz alta, alternando o narrador e os diálogos, comentando sempre as imagens.
O interessante é que ela já tinha lido, na escola, algumas adaptações de fábulas de La Fontaine e conseguiu identificar o gênero e também alguns pontos de contato entre as histórias. As favoritas dela foram O leão e o rato; A cadela e o reflexo (adoramos a cena da água); e O mosquito e o leão.
A minha favorita foi A oliveira e o capim, por tratar singelamente da importância da flexibilidade em nossas vidas; do valor de saber, quando necessário, calar e aguardar. O mais bonito ainda, nessa fábula, é ser contada em apenas duas páginas, belas aquarelas, manchas que a gente olha e olha, flexíveis como a fábula.
Um livro que a gente nunca se cansa de ler e apreciar.
Mais informações sobre a obra:
Autor: Liev Tolstói (1828-1910)
Seleção, adaptação e tradução do russo: Tatiana e Ana Sofia Mariz
Ilustrações: Cárcamo (Se você ainda não o conhece, não deixe de visitar o site e o blog desse excepcional mestre das aquarelas).
Edição: Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2009, 45p.
O que nos faz ter medo? Que medos levam a outros a ponto de nos bloquear? E como superar isso?
Esse singelo livro de Odilon Moraes, com lindas aquarelas em uma bem cuidada edição da CosacNaif, trata desse tema. A estória começa com "Era uma vez uma princesinha que tinha medo do escuro." Mas é uma princesinha que resolve tomar algumas providências quanto a isso - só que um medo vai levando a outro, e mais outro, e onde tudo isso vai dar?
Já li o livrinho umas zil vezes e a cada momento descubro algo novo, principalmente nas ilustrações. Quanta coisa bonita, quanto detalhe delicado, desde a princesinha temerosa da capa até o cenário enluarado do final do livro... Vale prestar bastante atenção em todos os detalhes. Tudo se encaixa, deleite para os olhos, deleite para a mente.
Gostoso também é ouvir o próprio autor falando de sua obra, nessa entrevista que está no site Letras e Leituras.
É possível ver algumas páginas da Princesinha no comecinho do vídeo em que o autor trata sobre a feitura de um livro infantil. Este vídeo é bastante interessante, porque mostra um pouco dos caminhos para construir o livro, desde a ideia e da concepção do projeto gráfico da obra. Mostra também outros títulos desse simpático autor:
Mais dados da obra: Autor e ilustrador: Odilon Moraes Publicação original em: 2002 Editora: CosacNaif
Uma exposição que está em cartaz em São Paulo e vale a pena visitar é "Era uma vez... arte conta histórias do mundo" com curadoria de Katia Canton e que relaciona a literatura de contos de fadas de várias partes do mundo com a arte.
É uma mostra de muito bom gosto em um espaço muito agradável - o Centro Cultural Banco do Brasil, um belo prédio antigo no coração da cidade.
Centro Cultural Banco do Brasil - São Paulo uma vista do saguão
Como a mostra está distribuída nos vários andares do prédio, resolvi começar a visita pelo subsolo e foi uma das partes de que mais gostei. Lá as obras de arte foram organizadas de acordo com os países a que se referem as histórias de fadas ou contos populares. O gostoso foi poder ouvir narrações nos fones de ouvido, escutar as estórias, e então olhar, observar de pertinho as imagens (em várias técnicas - aquarelas, colagens, esculturas etc.), buscar a relação da história ouvida com a imagem...
Foi fascinante também descobrir como os contos de fadas têm ligação entre si e, dependendo do país, da época, são contados com variações, como acontece com a Cinderela (como geralmente conhecemos), que tem, entre outras, uma versão russa chamada O sapato de ouro.
No segundo e terceiro andares, a mostra destaca os contos do francês Perrault, dos irmãos Grimm (alemães) e do dinamarquês Andersen. As salas onde estão as obras têm decoração ligada a algum fato ligado à época/país de cada autor e nelas também ouvimos um pouco sobre os contos em som ambiente. Interessante perceber como a época, o local, as condições socioculturais influenciam na forma como as histórias são contadas. Gostoso também observar como os artistas elaboram suas obras tendo os contos como inspiração.
Uma mostra para curtir, ver com calma, ouvir sem pressa, apreciar cada sensação, cada lembrança dos contos de fadas, além de aprender, ficar sabendo de outros contos e pronto! ter a curiosidade aguçada para conhecer mais (foi o que aconteceu comigo com o conto Pele de Asno, do Andersen). Ir com crianças deve ser uma delícia também - em alguns dias há atividade de contação de histórias (ver programação no site do Centro Cultural Banco do Brasil).
Os Irmãos Coração-de-Leão conta as aventuras do valente Jonas e do frágil Carlinhos. Tudo começa com o pequenino Carlos, adoentado, em sua casinha modesta, onde vive com a mãe, falando com muita admiração do seu irmão mais velho Jonas. Mas esse é um livro cheio de surpresas...
"Vou falar agora sobre o meu irmão. É sobre Jonas Coração-de-Leão, o meu irmão, que quero falar. Acho que o que tenho a contar se parece muito com uma saga e um pouquinho com uma história de almas do outro mundo. No entanto, é a pura verdade, embora Jonas e eu sejamos provavelmente as únicas pessoas do mundo a saber disso." (p. 7)
Pois bem... e a poucas páginas do início, já temos um baque grande... o que terá acontecido a Jonas? Mas é um susto passageiro, porque as aventuras dos irmãos correm além do tempo e do espaço, e vão realmente começar quando eles se reencontrarem em Nangaiala, uma terra com toques medievais onde se pode viver grandes sagas, grandes aventuras.
A delícia do livro está em acompanhar o nosso frágil Carlinhos, em suas duras experiências, que servirão para mostrar-lhe as armadilhas escondidas na falsidade das aparências e dos preconceitos e, ao mesmo tempo, que o farão descobrir o caminho da coragem, da amizade e da ternura. É um caminho árduo, duro, em uma terra que está sendo tiranizada pelo vilão Tengil e pela sombra de Katla. Mais um trechinho instigador:
"- Adeus, meu pequeno - disse Matias. - Não se esqueça do seu avô. - Eu nunca o esquecerei! - retruquei. Escorreguei então, sozinho, até a passagem subterrânea, e arrastei-me pelo longo túnel escuro, falando comigo mesmo todo o tempo para não ficar muito assustado. - Não faz mal que esteja escuro como breu. Não, você não vai ficar sufocado, de modo algum. É verdade que um pouquinho de terra está caindo no seu pescoço, mas isso não significa que o túnel vai desabar, seu bobo! Não, Dodô, o gordo, não vai ver quando você sair do outro lado. Ele não pode ver no escuro, não é? De certo que Jonas está esperando por você. Ele está lá, ouviu? Ele está lá!" (p. 117)
Astrid Lindgren consegue criar uma estória repleta de personagens fascinantes que lutam contra a opressão sem perder a suavidade - é Sofia, frágil e forte, com suas pombas brancas; é Matias, o vovô-amigo que luta e protege os meninos; é Hugo, o arqueiro... Consegue nos encantar com Carlos, um personagem com quem nos identificamos, mesmo que não queiramos (mesmo que desejemos ser sempre Jonas, o bravo). Todos os personagens mudam, mas é Carlos o que passa pelas maiores transformações, evoluindo com suas experiências, conforme as aventuras se sucedem.
Esta é a terceira vez que leio Os irmãos coração-de-leão, e sei que o lerei muitas mais... Assim é a boa literatura para todas as idades, aquela que encanta, que dura no tempo... que nos leva a Nangaiala e ao Vale das Roseiras Silvestres, que por um instante nos faz acreditar em mundos melhores, que nos faz sentir o verdadeiro prazer da leitura.
Carlinhos chega na estalagem Galo Dourado Ilustração de Ilon Wikland (p. 36-37)
Para conhecer mais pouco do trabalho dessa ilustradora, um vídeo que faz propaganda de um DVD mostra alguns de seus desenhos. Pena que a narração esteja em sueco e, dessa língua, infelizmente não entendo absolutamente nada... mas é possível apreciar as imagens (essa grande desbravadora das fronteiras linguísticas)!
Para saber mais sobre a excelente escritora que foi Astrid Lindgren, clique aqui (em português) ou aqui para mais informações (website oficial).
Mais alguns dados da obra:
Autora: Astrid Lindgren Tradução do sueco por: Maria Aparecida Moraes Rego (esta foi considerada uma das 10 melhores traduções de textos infanto-juvenis feitas no Brasil no ano de 1984) Ilustrações: Ilon Wikland Título original: Bröderna Lejonhjarta Editora: Nórdica Rio de Janeiro, 2a. edição, 1986
Obs.: a aventura da releitura deste lindo livro começou aqui.