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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Taxi - Gustavo Duarte



Há um ano, mais ou menos, comentei sobre o quadrinho de estreia do Gustavo Duarte, a impecável Có! Naquela época, indiquei que já estava esperando pela continuação ou por uma nova publicação, tão boa havia sido aquela primeira experiência.

Valeu muito a pena esperar um pouquinho - acabo de pegar nas mãos a Taxi.
Gostei logo de cara do formato do envelope que chegou pelos correios, agora quadrado e não mais retangular, lembrando um daqueles compactos antigos de 33/45 rotações. Com aquela coceira nas mãos, abri com cuidado, devagarinho. E ali estava - mais um trabalho excelente do Gustavo!

Bela narrativa gráfica, apenas de imagens, sem palavras - traços elegantes.

Nessa edição assistimos as peripécias de um músico de jazz que, apressado para recuperar uma maleta esquecida, pega um táxi com um motorista bastante inusitado. Até que consigam chegar a seus destinos, muitas aventuras são vividas pelo motorista e seu passageiro, num clima bastante surreal.

Também os detalhes são muito bem pensados - voltei ao passado vendo o taxímetro e o afogador que aparecem no táxi!

E as sensações da leitura? Encanto, surpresa, riso - uma alegria ler/ver/olhar a Taxi!

Ah, para quem quiser experimentar, esse quadrinho independente pode ser adquirido no blog do autor (atendimento de primeira!).

Mais alguns dados da obra:
Autor: Gustavo Duarte - http://www.gustavoduarte.com.br/
Edição: 10/2010, Bauru, São Paulo, Brasil - 32 p.

Para saber um pouco mais, veja a entrevista concedida ao Blog dos Quadrinhos (post do dia 27/10/2010)


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Có! - Gustavo Duarte


Começo contando como foi o caminho da Có! até aqui em casa.

Faz algum tempo já que eu conheço o Gustavo Duarte (embora ele não saiba - rs). Graças à boa e (nem tão) velha internet, frequentemente visito o blog dele - os desenhos e o humor do lugar são como aquelas casas de amigos para onde a gente sempre gosta de ir, para passar um tempo agradável e dar umas risadas gostosas.

Foi lá que fiquei sabendo que uma revista em quadrinhos viria ao mundo e que seria fácil adquiri-la ali mesmo no blog (ah, as coisas boas do mundo virtual). Que alegria quando recebi o exemplar aqui em casa e vi o cuidado e o capricho dessa publicação! Para quem gosta de receber coisas pelo correio como eu, o prazer já começou no envelope.




E tudo fica ainda melhor quando, virando a capa, a história começa - sem palavras, só desenhos.

Vemos o que parece ser um dia comum, noitinha, televisão ligada, um simpático senhor em sua sala, sentadão no sofá, numa casa tipicamente brasileira: na parede a flâmula do time do coração - o Noroeste de Bauru - e uma imagem de São José, protetor das famílias e dos trabalhadores. Um copinho, um golinho, mas... o que acontece depois... para o personagem principal nem tanto, mas para nós, leitores, que diversão!

Não, não vou contar, fiquem tranquilos - só posso dizer que o Gustavo consegue conduzir tão bem a história que não tem como não ficar apreensivo, surpreso, sorrir, e rir bastante também, até a última página!

Gosto muito de algumas soluções gráficas do autor, como umas curvas que ele usa para representar fumaça e que também aparecem nos cotovelos do personagem principal. A expressão corporal das galinhas está excelente, em especial daquela que aparece, ali pela página 24, em cima da geladeira. Nem preciso falar que já reli (revi) o quadrinho várias vezes.

Tudo muito bonito e interessante - um trabalho para fã de quadrinhos nenhum botar defeito!

Pelo trabalho, pelo bom gosto, humor, pelo capricho e pelo carinho, para o Gustavo um enorme parabéns e um grande beijo também!
(Já estou esperando a Có! n. 2)




Mais alguns dados da obra:
Autor: Gustavo Duarte - http://www.gustavoduarte.com.br/
Edição: 07/2009, Bauru, São Paulo, Brasil - 34p.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Mutts - os vira-latas - Patrick McDonnell



Ler Mutts é uma delícia. As tirinhas dessa edição da Devir trazem os carismáticos bichinhos criados por Patrick McDonnell que receberam, em português, os simpáticos nomes de Duque, o cão (Earl no original), e Chuchu, o gato (Mooch). Uma amizade bastante curiosa.

Os desenhos são simples e graciosos, as estórias inocentes, singelas e divertidas. É o tipo do álbum que você pega, vai lendo e sorrindo; lendo e rindo; lendo, observando os desenhos, e pensando... pensando bastante na nossa relação com os outros seres que também habitam esse nosso planeta.

Como de costume, sempre acho difícil descrever apenas com palavras o que precisa ser visto no conjunto imagem + texto. De qualquer forma, vamos à tentativa em uma das tiras de que mais gostei - uma daquelas que mostram o ponto de vista dos bichanos, como eles veem os homens:
- na página 13, Chuchu está na casa de Duque e ambos olham para Ozzie (o homem com quem o cãozinho mora, seu melhor amigo) e que está lendo o jornal, sentado em um sofá. O gatinho pergunta: "- Quem é esse aí?" A resposta do cão: "- Esse é o meu Ozzie." / "- O que é um Ozzie?" interroga o bichano; "- Ele é o cara que me alimenta, me dá petiscos, coça a minha barriga, me leva para passear... É o meu Ozzie." / E a tirada final do gatinho: "- Onde é que eu arranjo um?"

Me diverti bastante com as aventuras dos dois no açougue, onde costumam ir para ficar namorando as vitrines; e com suas indagações tentando entender os outros seres que estão ali pela casa ou pelos quintais: o peixinho no aquário, aves, outros cães.

Cenas de carinho e cuidado entre homens e animais também marcam as estorinhas e são muito bonitas e cheias de ternura. Encantamento gostoso, um bom tempo de leitura!

Para conhecer a carinha desses personagens, saber um pouco mais sobre eles e experimentar algumas tiras, o Mutts tem um site oficial (em inglês), é só clicar aqui.

Mais alguns dados da obra:

Título original: Mutts
Autor: Patrick McDonnell
Tradução e revisão: Marquito Maia
Edição: Devir Livraria, São Paulo, 127p.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Santô e os pais da aviação – Spacca



Com o subtítulo “A jornada de Santos-Dumont e de outros homens que queriam voar”, o álbum em quadrinhos do Spacca é fruto de uma rica pesquisa histórica que nos permite conhecer, de uma maneira muito prazerosa, os primórdios da aviação, acompanhando não só a trajetória do aviador brasileiro, mas apresentando também o que outras pessoas ao redor do mundo estavam criando na época.

A arte é ímpar – desde o roteiro até a arte final, passando pelos excelentes desenhos que transmitem muitas informações. É daquelas obras de agarrar e não querer largar até chegar ao final.

Um dos fatores que me chamam a atenção quando leio quadrinhos, principalmente os da envergadura desse trabalho, é a capacidade que a obra tem de captar nossa atenção. Isso acontece, por exemplo, quando, sem perceber, paramos em um quadrinho e ali ficamos... um bom tempo... olhando o desenho, pensando na história, no que ela transmite.

Entre tantos momentos em que isso ocorreu em Santô, destaco, para observação, a sequência da página 51, quando Sem (o caricaturista), conversando com Santos-Dumont, diz que este tem charme e o coloca no patamar de celebridade. A isso o nosso aviador rebate, afirmando, com um discurso técnico, que também sabe ser “desinteressante”. No penúltimo quadrinho dessa sequência, lê-se o que Sem aponta:
“Outros, ao contrário brilham eternamente, como os faróis e as estrelas. Brilhar é fundamental para sobreviver na cidade-luz...”
e no último quadrinho (o que chamou a atenção):

“Mas não se preocupe, Paris vai amá-lo. E esquecê-lo também... mas primeiro vai amá-lo.”

além do texto, o que entusiasmou foi o uso do efeito de contra-luz na imagem - nela vemos apenas a silhueta dos personagens. Imagem e texto muito bem integrados.
Outra cena interessante: o último quadro da página 111.
No texto:

“23 de outubro – Bagatelle. É quase meio-dia, e Santô já fez 9 tentativas, quebrou uma roda e perdeu uma pá da hélice. A comissão científica faz uma pausa para o almoço.”
Na imagem: 14 Bis bem ao fundo; na maior parte do quadro: um parque repleto de pessoas – vê-se de tudo - crianças brincando, mulheres conversando, animais, bicicletas, tudo com a ambientação da época. Se o aviador já tinha feito tantas tentativas, o restante das pessoas estava ali tranquilamente, num típico dia no parque.

Como já comentamos em outros posts sobre quadrinhos aqui no blog, o texto sozinho não diz tudo – é preciso atentar para as imagens, para a composição da cena e para a forma como o enredo é montado. Ou seja, no caso de Santô, o importante é mesmo pegar o livro nas mãos, olhar tudo, aventurando-se por ele.

O álbum conta ainda com: (i) um texto introdutório sobre o caricaturista Sem (Georges Goursat – 1863-1934) que acompanhou Santos-Dumont em algumas de suas peripécias; (ii) uma cronologia sobre o aviador brasileiro e outros pioneiros da aviação; (iii) uma bibliografia para quem quiser pesquisar mais sobre a matéria, incluindo sites da internet; e (iv) uma galeria com alguns esboços ( aqui uma crítica - é uma pena que só haja duas páginas! ).

Dentre as dicas de sites que constam da bibliografia, vale dar uma olhada no que contém desenhos do Hergé (o pai do Tintin) sobre o tema.


Outros dados da obra:
Título: Santô e os pais da aviação: a jornada de Santos-Dumont e de outros homens que queriam voar.
Autor: Spacca (Para conhecer mais sobre o Spacca e seu trabalho, visite o site dele, clicando aqui)
Ano da publicação: 2005
Edição lida: São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 160 p.


domingo, 26 de outubro de 2008

5 - Fábio Moon, Gabriel Bá, Rafael Grampá, Becky Cloonan e Vasilis Lolos


Fonte: Fábio Moon e Gabriel Bá


Ler, observar imagens, atentar para o foco e para a sequência narrativa. Tudo isso fazemos ao ler uma história em quadrinhos. Mas algo tem de ficar claro: os quadrinhos constituem uma linguagem autônoma, um gênero específico que não se confunde com literatura, teatro, cinema (apesar de poder conter elementos de todos eles). As histórias em quadrinhos constituem-se por isso que são: quadrinhos e, assim, têm as suas particularidades ao serem apreciadas ou analisadas.

A revista independente 5, que conta com a participação de cinco autores: os paulistas Fábio Moon e Gabriel Bá, o gaúcho Rafael Grampá, o grego Vasilis Lolos e a norte-americana Becky Cloonan, ganhou o principal prêmio internacional dos quadrinhos - o Eisner Awards, na categoria Antologia, e faz jus a isso.

Foi interessante tentar escrever sobre ela, usando apenas palavras. Afinal, como tratar, desta forma, uma obra que é composta exclusivamente por imagens?

E aí uma das coisas que mais me agradou: as estórias (a idéia era que cada um dos autores contasse um pouco sobre os outros) conversam entre si o tempo todo, através dos desenhos. É preciso atentar para cada quadrinho: observar, por exemplo, nos cenários, as pichações nas paredes, as imagens nos televisores, o material que está na prancheta de cada personagem. Os desenhos fazem referência à amizade dos autores, aos próprios quadrinhos que estão montando para a compor a revista 5, os lugares onde estão, o que estão sentindo.

As estórias foram assim organizadas: Gabriel Bá contou sobre Becky; Becky sobre o Fábio e o Gabriel; Fábio sobre o Vasilis; e o Vasilis sobre o Grampá; além disso todas as estórias têm uma bela página de entrada desenhada pelo Grampá, repleta de detalhes (veja um exemplo aqui).

Trata-se de um trabalho instigante, daqueles que sempre queremos olhar de novo - a cada vez que se pega a revista, podemos apreciar cada desenho e descobrir um detalhe novo, uma informação, uma sensação nova.

Mais alguns dados da obra:
Autores e links para os blogs

sábado, 24 de maio de 2008

A Força da Vida - Will Eisner

Will Eisner é reconhecido como o grande transformador da linguagem dos quadrinhos. A partir dele, as HQs (histórias em quadrinhos) passaram a ser vistas com um novo enfoque. Cunhando o termo graphic novel (romance gráfico), elevou essa forma de narrativa ao status de arte - a arte seqüencial.

Aventurar-se por estórias como Um Contrato com Deus ou O Complô é mergulhar em um mundo repleto de referências históricas, cru e bruto por vezes, onde pessoas comuns tentam sobreviver.

Em A Força da Vida, álbum que acabo de ler, Eisner penetra na vida de personagens que vivenciam a Grande Depressão ocorrida nos anos 30 nos Estados Unidos. Na tessitura narrativa que se monta em torno da Avenida Dropsie, n. 55, no Bronx, assistimos à luta de Jacob, Elton, Rebecca, Angelo, entre outros, geralmente imigrantes, para se manter vivos.

E, nesse embate, onde ficam os sonhos, os desejos, quando a necessidade de sobrevivência é maior? O que nos diferencia (se é que há essa diferença) dos insetos, além da imensa força da vida? Na abertura, lemos:

Vai saber... Vai saber... Por que todas as criaturas da Terra lutam tanto para viver? Por que elas andam apressadas, fogem do perigo e continuam a obedecer um ciclo natural de existência, aparentemente em resposta a uma misteriosa "Força da Vida"? (p.7)
Mas, quando lemos uma obra como essa, não basta atentar para as palavras (como as transcritas acima) - é preciso observar e apreciar as imagens, prestar atenção aos desenhos, luzes e sombras, perspectivas, emoção e sensibilidade dos desenhos de Eisner - imagem e texto fundem-se forte e harmonicamente na composição da estória. Ver o mesmo texto acima, nas imagens seguintes:




Emocionaram-me bastante as seqüências das páginas 48 e 49, que mostram o desespero de um rapaz que chegou ao fundo do poço com a Depressão, e o capítulo final intitulado Sobrevivência. É o tipo de álbum que acabamos de ler e ficamos folheando ainda um bom tempo, voltando as páginas para relembrar sensações...

Mais alguns dados da obra:
Título original: A Life Force
Tradutor: Marquito Maia
Editora: Devir, 2007, 152p.
Para saber mais sobre Eisner, vale conhecer também o site oficial do autor.