terça-feira, 3 de abril de 2012

Diário da Guerra do Porco - Adolfo Bioy Casares



Incômodo foi o sentimento que surgiu nos primeiros capítulos do livro de Casares. E não foi uma sensação que passou depois. No desenrolar da trama, acabamos percebendo que o livro parece ter sido estruturado de maneira a criar esta sensação, entre tantas outras. Fazer pensar na passagem do tempo, no envelhecimento.

Acompanhamos a narrativa das vivências e pensamentos de Isidro Vidal, um senhor de quase 60 anos, que vive com o filho.  Os idosos do lugar estão passando por dificuldades devido a um movimento que acontece de forma estranha. É a Guerra do Porco. Os jovens estão se rebelando contra os velhos, por motivos difusos que, por vezes, acabam dividindo os próprios jovens.

As dúvidas e medos que rondam Dom Isidro e seus amigos, que têm de passar por situações tantas vezes vexatórias, também nos afligem. Há idosos desaparecidos, mortos, feridos... e muitos tentando viver em meio a um  medo generalizado...
"(...) Dessas lembranças Vidal passou a outras, dos últimos dias de seu pai. Lembrava-se dele, tão próximo e já tão fora do alcance, no medo e na dor da morte. Cada qual está em si mesmo e nada pode fazer pelo próximo. Vidal sentiu uma desolada certeza sobre a inutilidade de tudo. O que foi aquele afã de falar - pura vaidade - que lhes havia dado naquela noite? Entre eles, sabiam de antemão o que um e outro iam dizer. Pensou que falar assim no velório de um amigo era uma ofensa repugnante e que agora ele continuava falando. Parecia que tinha sido ontem que levavam uma existência despreocupada; de repente, a própria condição da vida tinha se tornado intolerável. Deu vontade de fugir. (...)" (p. 107)
Em formato de "diário", há algumas marcas temporais que indicam que a trama se passa em pouco mais de uma semana: de 23 de junho aos primeiros dias de julho. Contudo a sensação da leitura, tão intensa, é a de que o tempo é outro, mais longo, tempo trazido das lembranças, do passado e das vivências daquele momento.
Esse ponto me intrigou tanto que despertou o interesse de fazer uma segunda leitura (quem sabe uma terceira também?) somente para atentar para essa questão do tempo...

A narrativa é impecável. Casares, esse mestre argentino da escrita, nos atinge com aquela força típica das  grandes obras literárias. Suas palavras ficam ecoando na mente muito e muito tempo depois de fecharmos o livro.

Para saber um pouco mais sobre Bioy e sua obra, não deixe de assistir a entrevista de 1998 (em espanhol), disponível no youtube, clicando aqui.

Mais alguns dados da obra:

Autor: Adolfo Bioy Casares (1914-1999 - Buenos Aires, Argentina)
Título original: Diario de la guerra del cerdo
Tradução: José Geraldo Couto
Edição: São Paulo, Cosac Naify, 2010, 208 p., 4 ils.


domingo, 18 de março de 2012

19 de março - É Dia do Artesão



Aquarela sobre papel fabriano artístico grana fina


Recebi mais uma encomenda do Mania de Artesanato, blog cheio de objetos lindos que a Raquel Carvalho cria.

A ideia desta vez era homenagear todos aqueles que gostam de mexer com tintas, tecidos, linhas, agulhas, papel, tesoura, cola, pincéis, e muito mais, para deixar a criatividade fluir.
Saiu então mais uma aquarelinha... não ficou tão delicada quanto planejei. Descobri que preciso aprender a trabalhar melhor com prazos curtos!

Para este desenho, tive que estudar um pouco sobre panejamento. E foi pouco mesmo rs. Ainda estou com muitas, muitas dúvidas, ou seja, vamos incrementar os estudos.


E...
Para todos aqueles que, 
como nós, 
gostam dessa vida artística - 
parabéns pelo Dia do Artesão!


domingo, 11 de março de 2012

Águas (Estudos - 29)



Aquarela sobre papel fabriano artístico grana fina



Aquarela sobre papel fabriano uno grana fina


Mais alguns estudos em aquarela. E aqui percebi alguns detalhes sobre os papéis...
Enquanto o fabriano artístico (1a. imagem) responde bem às manchas e a algumas sobreposições e fusões, o papel fabriano uno (2a. imagem) "agarra" um pouco mais a tinta no papel quando vai secando, marcando mais as pinceladas, tornando as fusões mais difíceis.

Contudo, é uma questão de adaptação e aprender a explorar as qualidades de cada um. Por enquanto, o Fabriano ainda é o meu papel preferido para as aquarelas.



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

sábado, 28 de janeiro de 2012

Um banner em aquarela


Aquarela sobre papel fabriano grana fina


Faz um tempinho que estou estudando uma ilustração para ser colocada como banner de um blog da internet.

Tinha que ser uma aquarelinha especial, porque é para uma pessoa muito, muito querida!

Ficou pronto hoje, depois de, pelo menos (rs), umas 8 tentativas. É muito interessante como, quando temos um objetivo, aprendemos muito mais. Tive que estudar vários temas, como luz e sombra, composição etc. etc. e... acabei descobrindo duas coisas - ainda preciso estudar muito mais e também comprar um scaner decente!

Depois da aquarela, mexi um pouco no brilho e nos níveis, inclui o título do blog e a nome dessa pessoa tão querida, usando photoshop.



Se quiserem ver como ficou, na prática, é só visitar o excelente Mania de Artesanato.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Píppi Meialonga - Astrid Lindgren




Píppi Meialonga é uma menina diferente e, principalmente, independente, cheia de atitudes e ideias que costumam chacoalhar alguns pensamentos não muito acostumados a sair do lugar.

Para alguns, ela pode até assustar à primeira vista - mas quem não fica um pouco intrigado com o que vê pela primeira vez? Afinal, Píppi é uma criança, mas veio morar sozinha na Vila Vilekula, tem um macaco como companheiro permanente, o Sr. Nilson, e um cavalo que mora na sua varanda, além de ser uma garota muito, mas muito forte mesmo.

Essa famosa personagem da literatura infantil mundial, criada pela Astrid Lindgren lá nos idos de 1945, continua (e como continua) extremamente atual e instigante. Por quê? Principalmente pelo inusitado, pelo bom humor e por questionar lugares comuns meio bolorentos. É o que acontece, por exemplo, quando os policiais são chamados para tentar levar a garota para um lar de crianças:
"[...] Depois acrescentaram que algumas pessoas bondosas da cidade estavam tomando providências para conseguir uma vaga para ela num lar de crianças.
- Já tenho minha vaga num lar de crianças - disse Píppi.
- Como assim? A questão já foi resolvida? - perguntou um dos policiais. - Onde fica esse lar de crianças?
- Bem aqui! - disse Píppi, orgulhosa. - Eu sou uma criança, e este é meu lar, portanto este é um lar de criança. E aqui tem vaga de sobra pra mim. [...]
- É, mas você não entende que tem de ir à escola? - insistiu o policial.
- E por que tenho de ir à escola?
- Para aprender as coisas, óbvio!
- Que tipo de coisas?
- Todos os tipos de coisas - disse o policial -, um montão de coisas úteis. A tabuada, por exemplo.
- Faz nove anos que vivo muito bem sem tamburada - disse Píppi - E não vejo nenhuma razão para não continuar assim. [...]" (p.38-39)
E mais adiante, quando o policial pergunta se ela não vai ficar com vergonha se alguém lhe perguntar qual é a capital de Portugal e ela não souber responder:
" - É, mas você não acha que ia ficar chateada por não saber?
- Pode até ser - disse Píppi - Com certeza eu ia ficar noites e noites acordada pensando: 'Como é mesmo que se chama a capital de Portugal?'. Mas a pessoa não pode passar o tempo todo se divertindo - disse, e para variar um pouco trocou de posição e começou a se equilibrar nas mãos em vez de ficar em pé. - Aliás, já estive em Lisboa com meu pai - continuou, ainda de cabeça para baixo, pois também conseguia falar nessa posição." (p. 39)
Conheci os livros da Píppi faz pouco tempo e um dos aspectos que me agradou foi que, na maior parte do tempo, as perguntas por quê? como? isso poderia ser diferente? foram encaminhando o pensamento durante a leitura.

Em sua narrativa fluente, cheia de encanto e alegria, Astrid nos faz acompanhar as várias aventuras de Píppi,  e seus amigos Tom e Aninha que acabam aprendendo com ela a brincar de verdade. A personagem acaba mostrando a outras crianças um forte senso de justiça e, aos adultos, que não são sempre eles que sabem tudo - todos precisam suspeitar de suas certezas. Além disso, Píppi é uma figurinha muito simpática e bastante aberta a questionar a si mesma:
" - De onde você tirou que eu nunca estive no Egito? Pois estive! Fique sabendo que eu já estive em todos os lugares do mundo e já vi muitas coisas bem mais estranhas do que pessoas andando de costas [...]
- É tudo mentira sua - disse Tom.
Píppi pensou um pouco.
- É você tem razão. É mentira - disse ela, chateada.
- É feio mentir - disse Aninha, que finalmente tinha criado coragem de abrir a boca.
- É mesmo, é muito feito mentir - disse Píppi, ainda mais triste. - Mas de vez em quando eu esqueço, entende? E você acha mesmo que uma menina que tem uma mãe que é um anjo e um pai que é rei dos canibais, uma menina que passou a vida inteira navegando mar afora, tem de ficar o tempo todo dizendo a verdade? E aliás... - [...]" (p.15-16)
Um destaque da edição da Companhia das Letrinhas são as ilustrações do Michael Chesworth, ilustrador americano também responsável pelas imagens de Píppi nos Mares do Sul e Píppi a Bordo. As imagens são tão divertidas e instigantes quanto o texto.

Mas o principal - este livro nos proporciona um grande prazer - é muito divertido viajar pelo mundo da Píppi Meialonga!


Mais alguns dados da obra:

Autora: Astrid Lindgren (1907-2002)
Título original: Pippi Långstrump (1945)
Tradução do sueco por: Maria de Macedo
Ilustrações: Michael Chesworth (site - http://www.crashbangboom.com/)
Edição: Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2001, 156 p.

E mais algumas informações sobre a Píppi e sua criadora:

- Uma entrevista com a Astrid Lindgren (em inglês) está disponível no site Astrid Lindgren´s World;
- As peripécias da menina de tranças esticadas ganharam uma série para a TV em 1969 e adaptações para o teatro;
- A autora tem por volta de 80 livros publicados traduzidos para diversas línguas;
- No Brasil, além de Píppi Meialonga, foram traduzidos: Píppi a Bordo e Píppi nos Mares do Sul.
- Aqui no blog já comentamos também sobre Os irmãos coração de leão.