terça-feira, 11 de novembro de 2008

A fada que tinha idéias - Fernanda Lopes de Almeida



Vamos começar este texto apresentando uma criaturinha muito esperta e deixando que ela mesma fale:


"Clara Luz era uma fada, de seus dez anos de idade, mais ou menos, que morava lá no céu, com a senhora fada sua mãe. Viveriam muito bem se não fosse uma coisa: Clara Luz não queria aprender a fazer mágicas pelo Livro das Fadas. Queria inventar suas próprias mágicas.

- Mas, minha filha - dizia a Fada-Mãe - todas as fadas sempre aprenderam por esse livro. Por que só você não quer aprender?
- Não é preguiça, não, mamãe. É que não gosto de mundo parado.
- Mundo parado?
- É. Quando alguém inventa alguma coisa, o mundo anda. Quando ninguém inventa nada, o mundo fica parado. Nunca reparou?
- Não...
- Pois repare só." (p. 7)

É assim que começam as deliciosas aventuras da menina-fada que revoluciona o mundo mágico. É relampagozinho (relampinho) que vira um fermento complicado, é chuva colorida que alegra a criançada lá da terra, é festa no céu com direito a muita cantoria. Mas são também mágicas que geram muitos medos, suspiros e desmaios nas Fadas adultas que não querem de modo algum, imaginem, incomodar o protocolo da Rainha das Fadas. Afinal, novas mágicas não eram permitidas - o livro das fadas devia ser seguido.

Sem dúvida, uma fadinha que vem espanar poeirentos costumes e injustas repressões.

Este é mais um livro relido, marco de infância, que se mostrou resistente ao tempo. Se para as crianças o delicioso é conseguir ler com facilidade, surpresa e alegria as aventuras da Clara Luz, tendo frisado o estímulo à criatividade e à liberdade, para os adultos é reviver tudo isso, além de sentir uns belos beliscões e cutucões que não deixam ninguém muito sossegado na sua poltrona; belos puxões de orelha para espantar idéias poeirentas e lembrar que criatividade e alegria ainda existem.

Nessas sensações revividas, ao chegar à última página, a grande surpresa foi a leveza, o fechar o livro devagarinho, com um sorriso bem largo no rosto, tentando enveredar por uns certos horizontes...


"A Professora de Horizontologia
[...]
- A minha primeira opinião é que não existe um horizonte só. Existem muitos.
- Está enganada - disse a Professora. - Horizonte é só um!
- Eu sei que todos acham que é só um. Mas justamente vou escrever um livro, chamado Horizontes Novos.
- Você vai escrever um livro? - perguntou a Professora, cada vez mais admirada.
- Vou. Eu acho que criança também pode escrever livros, se quiser, a senhora não acha?
- Acho, sim.
- Pois nesse livro eu vou dizer todas as minhas idéias sobre o horizonte.
- São muitas? - quis saber a Professora.
- Um monte. Por exemplo: eu acho que nós duas não devíamos estar aqui.
- Ué! Devíamos estar onde, então?
- No horizonte, mesmo. Assim, em vez da senhora ficar falando, bastava me mostrar as coisas que eu entendia logo. Sou muito boa para entender.
- Já percebi - disse a Professora.
- Tenho muita pena das professoras, coitadas, falam tanto!" (p.23)

Para conhecer um pouquinho mais sobre a estória da criação deste livro nas palavras da autora e também espiar as singelas ilustrações do Edu, vale dar uma olhada no site da editora, clicando aqui.

No final da edição consultada (27a.), há ainda comentários de Laura Sandroni e também um depoimento da própria autora.


Outros dados da obra:

Ano da primeira publicação: 1971
Ilustrações: Edu
Edição consultada e de onde foram extraídas as citações:
São Paulo, Editora Ática, 27 ed., 2007, 64p.
(Coleção Fernanda Lopes de Almeida)

8 comentários:

McFly disse...

Eu lembro desse livro, o li.

Deu saudades. Assim como da Fada Desencantada, O Menino Marronzinho, Raul da Ferrugem Azul, Procurando Firme e...

Chega. Quando visitar meus pais, farei uma caça ao tesouro!

Obrigado pela memória!

Patrícia C. disse...

Olá, McFly

É gostoso mesmo lembrar desses livros, né?

E veja só que coincidência - você falou em fazer uma caça ao tesouro... pois é - estou acabando de ler A Ilha do Tesouro do R.L.Stevenson, sobre o qual pretendo falar em breve aqui!

Fiquei curiosa também com o Raul da Ferrugem Azul que você citou. É da Ana Maria Machado, certo? Vou procurar.

Um abração!

juliabax disse...

Oi Patrícia, valeu pela visita ao site. Que bom que gostou das novas páginas de quadrinhos, ainda é uma coisa meio experimental.
Também tenho muitas lembranças boas de livros infantis. Adorava Raul da Ferrugem Azul! Tem dois que tenho bastante carinho também, que ainda tenho aqui em casa. Os dois do Ziraldo, só que sem desenho! Flicts e Planeta Lilás. A arte é super viajeira e o roteiro muito meigo.

Patrícia C. disse...

Oi, Julia!

Olha só que barato! Agora que vou mesmo atrás do Raul da Ferrugem Azul - fiquei mais curiosa ainda ;)
Lembro bastante do Flicts da época de criança, mas não cheguei a conhecer o Planeta Lilás. Valeu pela dica - já entrou na minha lista também!

Um beijão e valeu pela visita!

Licca disse...

Olá Patricia!

Parabéns pela bela resenha! Esse livro é realmente maravilhoso, um clássico da literatura infantil nacional que todas as crianças deveriam ter acesso.

Já que é pra relembrar dos clássicos infanto-juvenis,vou deixar uma ótima dica pra você: O Homem no Teto, de Julles Feiffer. Esse livro me tocou de tal maneira que resolvi homenagea-lo no meu blog: http://www.mulhernoteto.blogspot.com/

Beijos!

Patrícia C. disse...

Oi, Lica!
tudo bom?

Vou experimentar o Homem no Teto, sim! Valeu pela dica.

Gostei do seu blog também, já estou seguindo!

Um abração e obrigada pela visita!

Cecilia disse...

Parabéns! gostei bastante de seu texto.Estou precisando saber a biografia do ilustrador para um trabalho que estou fazendo, curso Letras. Se puder me ajudar ficaria muito grata!

Patrícia C. disse...

Olá, Cecília
tudo bom?

Na época deste post, pesquisei sobre o ilustrador na internet, mas não consegui encontrar informações específicas na rede.

Há alguns sites dedicados à ilustração brasileira. Talvez você consiga obter alguma informação nesses endereços:

Site da Sociedade dos Ilustradores do Brasil - SIB:
http://www.sib.org.br/

Tupixel:
http://www.tupixel.com.br/

Abraços e obrigada pela visita!